22/05/2026
“O que acontece na infância não f**a na infância.”
A primeira vez que ouvi esta frase foi na voz do Dr. Paulo Guerra, alguém que dedica o seu trabalho na defesa dos direitos das crianças e que muito admiro. E, perante este caso mediático que tantas emoções, opiniões e julgamentos tem despertado, volto inevitavelmente a essa frase.
Temos assistido a debates sobre responsabilidades parentais, sobre o que signif**a ser mãe e pai, ser padrasto e madrasta, sobre limites, afeto, presença e proteção.
Mas, no meio do ruído mediático, existe algo que não pode ser esquecido: as crianças. Crianças que, independentemente do desfecho, carregarão consigo marcas emocionais que não desaparecem quando as notícias terminam.
Porque aquilo que uma criança vive na infância molda profundamente a forma como aprende a amar, a confiar, a relacionar-se e até a olhar para si própria. A ausência de cuidado, os conflitos, a instabilidade emocional, o sentimento de abandono não f**am “lá atrás”. Crescem com elas.
E isso leva-me inevitavelmente a uma pergunta difícil: o que leva pais a adotarem comportamentos que colocam os filhos em sofrimento? Estamos verdadeiramente a viver relações assentes no amor, na presença e no cuidado? Ou estaremos, demasiadas vezes, presos em dinâmicas de dor, ego, conflito e incapacidade emocional?
Quando o ambiente familiar deixa de ser um espaço seguro, o papel da sociedade e do Estado torna-se essencial. Proteger crianças não é apenas intervir quando o dano já aconteceu. É criar estruturas de apoio emocional, educação parental, respostas de saúde mental e mecanismos ef**azes de prevenção. É garantir que nenhuma criança cresce sem referências de afeto, estabilidade e dignidade.
Ganhando aqui as famílias de acolhimento um lugar de destaque.
E talvez também seja tempo de ampliarmos o próprio conceito de família. Porque família é muito mais do que laços de sangue. Família é quem cuida, quem protege, quem permanece, quem dá segurança emocional e ensina uma criança que ela merece amor sem medo.
No fim, a forma como tratamos as nossas crianças diz tudo sobre a sociedade que escolhemos ser.