08/05/2026
OPINIÃO | REVISTA VISÃO |
Maximiano do Vale, Vice-presidente da ASJP
Cavalos de Tróia
Uma das mais famosas lendas da mitologia conta que os gregos passaram cerca de dez anos a tentar conquistar a cidade de T***a, mas sem sucesso. Foi então que o herói grego, Ulisses, teve uma ideia engenhosa: construir um enorme cavalo de madeira e esconder soldados no seu interior.
Feita a construção, os gregos fingiram abandonar a guerra e deixaram o cavalo à porta da cidade como “oferta”. Os troianos, por sua vez, acreditaram que aquele era um símbolo de paz e levaram-no para dentro das muralhas. Sucede que, durante a noite, os soldados escondidos saíram do cavalo, abriram os portões da cidade ao exército grego que tinha regressado em segredo, e assim T***a foi finalmente conquistada e destruída.
Com o passar dos anos, a expressão “Cavalo de Tróia” passou a ser frequentemente usada para descrever algo que parece inofensivo mas que, na verdade, esconde um perigo ou algo potencialmente letal.
O fenómeno do “grooming” pertence tragicamente a esta categoria insidiosa. Surge como uma infiltração inocente e, quando se dá conta, já há toda uma estrutura comprometida. De facto, o “grooming” não se caracteriza por uma violência ou por uma perseguição evidentes, mas antes por aproximações pacientes, metódicas e, frequentemente, invisíveis aos olhos de quem deve proteger.
Ora este fenómeno está, cada vez mais, no centro da discussão pública e, como tal, não se afigura adequado tratá-lo como um episódio isolado ou passageiro destinado a desaparecer na espuma dos dias. O grooming é, de facto, um problema estrutural, alimentado por uma combinação de vulnerabilidades humanas e arquiteturas digitais que, em muitos casos, parecem feitas à medida de quem procura explorar.
Convém, antes de mais, definir o que está em causa. “Grooming” é o processo através do qual um adulto estabelece uma relação de confiança com uma criança ou jovem com o objetivo de a manipular, explorar e, no limite, abusar sexualmente. Não começa, em regra, de forma evidente, mas essencialmente com recurso a uma empatia simulada, buscando seduzir e captar a atenção e a confiança do interlocutor. E considerando que, do outro lado da “linha”, em regra, estará um menor, a forma de atuar ganha contornos especialmente insidiosos.
De facto, vivemos numa época em que a presença digital deixou de ser uma mera extensão da vida para se tornar, em muitos casos, o seu epicentro. Muitas crianças e adolescentes (mas também adultos) vivem, nos dias de hoje, em ambientes onde a validação social se mede em gostos, comentários e seguidores. Neste contexto, um adulto que se apresenta como compreensivo, interessado e disponível pode rapidamente conquistar um espaço de intimidade que, noutras circunstâncias, levaria meses ou anos a construir.
E o problema ganha especial acuidade na medida em que o perigo não está apenas nos indivíduos que cometem estes atos, mas também nas condições que os tornam possíveis. As múltiplas plataformas digitais disponíveis e acessíveis são, cada vez mais, desenhadas para maximizar o tempo de utilização e raramente priorizam mecanismos de proteção robustos. A moderação de conteúdos é, muitas vezes, reativa e insuficiente. E os sistemas de denúncia, embora existam, são frequentemente complexos ou pouco ef**azes para quem mais precisa deles.
Por outro lado, temos ainda uma dimensão cultural que não pode ser ignorada. Durante demasiado tempo, persistiu uma certa relutância em abordar frontalmente temas relacionados com abuso, sobretudo quando envolvem menores. O desconforto destas questões é muito potenciador do silêncio que, por sua vez, cria terreno fértil para a continuidade do problema.
A adensar as dificuldades da questão, o que se constata é também a inquietante e crescente sofisticação das abordagens. Já não se trata apenas do recurso aos comuns perfis falsos ou a identidades facilmente desmontáveis. Ao invés, muitos agressores investem tempo, constroem narrativas credíveis, adaptam a linguagem e exploram fragilidades emocionais com uma precisão que revela preparação e persistência. Estamos, portanto, perante um fenómeno que evolui e que exige respostas igualmente dinâmicas.
E que respostas poderão ser essas? Em primeiro lugar, a educação. Não apenas para crianças e jovens, mas também para pais, professores e cuidadores. A literacia digital não pode limitar-se ao uso funcional das ferramentas, mas antes tem de incluir a compreensão dos riscos e das dinâmicas de manipulação. Saber reconhecer sinais de alerta, como mudanças de comportamento, secretismo excessivo, novas “amizades” que evitam o escrutínio, pode fazer a diferença.
Em segundo lugar, a responsabilidade institucional. As autoridades têm de dispor de meios técnicos e humanos para investigar estes crimes com eficácia. A cooperação internacional é crucial, dado o carácter transnacional da internet, mas também é urgente que as empresas tecnológicas sejam chamadas a assumir um papel mais ativo, responsabilizando-se como agentes do ambiente que ajudam a criar.
Em terceiro lugar, o apoio às vítimas. O impacto do “grooming” não termina quando o contacto é interrompido ou quando o agressor é identif**ado. As consequências psicológicas podem ser profundas e duradouras, sendo, por isso, fundamental garantir acompanhamento especializado, acessível e contínuo, que permita às vítimas reconstruir a confiança, em si próprias e nos outros.
Importa ainda evitar uma armadilha recorrente: a tentação de culpabilizar quem foi alvo de manipulação. Crianças e jovens não têm, por definição, a maturidade necessária para antecipar todas as intenções ocultas de um adulto. Transferir para eles a responsabilidade é não só injusto como contraproducente, porque reforça o silêncio e a vergonha que impedem a denúncia.
Há, finalmente, uma questão de atenção coletiva. Vivemos num tempo saturado de estímulos, onde a capacidade de concentração é disputada por múltiplas urgências aparentes. O risco é que temas como o “grooming”surjam, indignem durante alguns dias e depois sejam rapidamente substituídos por outros, sendo certo que a proteção de crianças e jovens não pode ser intermitente, antes exigindo consistência, vigilância e compromisso.
Em todo o caso, importa reter que o grooming não é um fenómeno novo, no entanto, as suas formas contemporâneas colocam desafios inéditos que exigem mais coordenação e conhecimento.
Se regressarmos à velha história da mitologia grega, percebemos que tão letal pode ser o agressor como o nosso adormecimento coletivo. E quando falamos de crianças, em que o “cavalo de Tróia” pode estar no interior dos seus quartos, numa comum aplicação de telemóvel, o dano pode ser irreversível.
Ligação: https://visao.pt/opiniao/da-lei-e-da-vida/2026-05-08-cavalos-de-troia/