22/09/2026
Entre a toga e o espelho!
Acorda antes do despertador. A cabeça já está a trabalhar: um prazo que termina na sexta-feira, uma contestação por rever, uma audiência para a qual quer estar mais preparada do que qualquer outro na sala. Aprendeu cedo que, para ela, estar preparada não basta. Tem de estar irrepreensível.
Às nove e meia está no tribunal. Veste a toga e, com ela, uma armadura que ninguém vê. Sabe que cada palavra sua será medida com uma régua diferente. Se fala com firmeza, é agressiva; se é cordial, é frágil. Se ganha, teve sorte; se perde, confirmou o que alguns já esperavam. Por isso estuda o dobro, revê o dobro, chega mais cedo e sai mais tarde. Não por vaidade, mas porque sabe que o erro de um colega é esquecido e o dela é lembrado.
A profissão que escolheu por ideal revelou-se, muitas vezes, um terreno de concorrência feroz. Há colegas que sorriem no corredor e, à primeira oportunidade, lhe aliciam os clientes. Há quem lhe peça favores e nunca os devolva. Há quem confunda a sua lealdade com ingenuidade. Aprendeu a guardar a confiança para poucos e a não se surpreender com a falta dela nos outros. Ainda assim, recusa-se a jogar o mesmo jogo. A sua palavra continua a valer o que sempre valeu.
Ao fim da tarde, o escritório esvazia-se, mas o trabalho não. Há mensagens de clientes, peças por terminar, a dúvida persistente sobre se fez tudo o que podia. Não tem sócios que a amparem nem estrutura que a proteja. Tudo o que conquistou foi construído com o próprio nome, processo a processo, cliente a cliente.
E ela, a mulher? Existe nos intervalos. No café bebido de pé, na música do carro, nos cinco minutos de silêncio antes de sair. Existe na teimosia com que se recusa a desistir, mesmo nos dias em que o cansaço e a injustiça lhe pedem que o faça.
E, no entanto, se lhe perguntarem, não hesita: escolheria tudo outra vez.
Porque gosta de ser advogada. Gosta do silêncio da sala antes de a audiência começar, do peso de um processo bem estudado, do momento exato em que o argumento certo encontra o seu lugar. Gosta de olhar para um cliente que chegou sem esperança e vê-lo sair de cabeça erguida. Gosta de saber que, do outro lado da barra, há alguém que só tem a sua voz.
Não é advogada apesar das dificuldades. É advogada porque nenhuma delas foi suficiente para a fazer desistir.
À noite, prepara a pasta para o dia seguinte. Amanhã há mais uma audiência, mais um prazo, mais uma batalha. E ela lá estará, de toga vestida, pronta. Não por obrigação, mas por escolha.
Porque ser advogada não é o que faz. É quem é. Paula Sousa Mourão.