01/04/2021
PARA ONDE VAI O BRASIL?
Há muitos anos, no Brasil, alguém me contou uma piada sobre um tal de caminhoneiro português chamado (olha a novidade) Joaquim que ao levar a sua primeira carga para o destino ouviu esta notícia no radio:
- Atenção motoristas! Tem louco na contramão na Avenida Presidente Vargas!
Espantado o Joaquim diz:
- Um não, tem vários!
Esta piada me faz lembrar um pouco o Governo Brasileiro o qual, em termos de política externa, optou por se isolar. Tenho pena que o Presidente Brasileiro, que tomou posse a 1 de Janeiro de 2019, ainda não tivesse tido tempo (ou vontade política) para se deslocar a Portugal, nação com a qual o Brasil tem mais do que óbvios laços históricos e onde reside das maiores comunidades brasileiras fora do Pais, nem tão pouco tivesse ido a qualquer outro país da União Europeia. Mas estas opções tem um preço... como a seguir se verá;
Mas, em 2019, Bolsonaro já teve tempo para ir à Suíça, aos Estados Unidos da América, ao Chile, a Israel, (para retornar) aos Estados Unidos da América, à Argentina, ao Japão, à China, aos Emiratos Árabes Unidos, ao Catar e à Arabia Saudita. Em 2020 foi à India, ao Uruguai e retornou pela terceira vez aos Estados Unidos da América.
Estrategicamente, até 2019, Brasil e Portugal cooperaram conjuntamente em diversos fora internacionais e Portugal vinha fazendo lobby para que o Brasil se tornasse um membro permanente do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Convirá aqui também recordar que o atual Secretário-Geral da ONU é o português António Guterres e que os dois países são membros fundadores da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), uma organização intergovernamental dos países de língua oficial portuguesa.
Mas, tudo isso acabou! O Brasil de há dois anos a esta parte opta por uma linha isolacionista, afrontando inclusive os BRICS. Ainda este mês de Março, a Índia e a África do Sul buscavam autorização para produzir imunizantes e remédios genéricos contra a covid-19 e os EUA e a UE são contra esta iniciativa e apontam risco à inovação. O Brasil é o único país em desenvolvimento contrário a esta proposta.
Mais, recordo que a República Popular da China era até há bem pouco tempo o maior parceiro comercial do Brasil, até que o então Ministro Abraham Weintraub ter feito uma piada sem graça sobre chinês, a que se seguiu uma declaração do deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) a responsabilizar a China pela pandemia de coronavírus provocando uma crise diplomática (gratuita) com o Brasil. Pelo meio o embaixador da China no Brasil, Yang Wanming, manifestou veemente o repúdio pela declaração do deputado, chegando mesmo a dizer que o filho do Presidente Bolsonaro "contraiu um vírus mental" em Miami! Um total desrespeito institucional dum diplomata estrangeiro por um membro do Congresso Brasileiro!
Pergunta: do ponto de vista de relações externas o que é o Brasil ganhou com esta infantilidade do deputado federal Eduardo Bolsonaro? E quem lha pediu?
Em 28 de junho de 2019, a União Europeia e os países membros do Mercosul, a Argentina, o Brasil, o Paraguai e o Uruguai concluíram as prolongadas negociações com vista a um importante acordo comercial.
Por essa altura então comércio bilateral da UE com o Mercosul ascendia a 88 mil milhões de EUR por ano para as mercadorias e a 34 mil milhões de EUR para os serviços. A UE exportava para o Mercosul bens no valor de 45 mil milhões de EUR por ano e importava produtos do Mercosul com um valor quase idêntico (43 mil milhões de EUR). No que se refere aos serviços, a UE exportava mais do dobro do que importa: 23 mil milhões de EUR de serviços prestados por empresas da UE a clientes no Mercosul contra 11 mil milhões de EUR em serviços prestados a clientes da UE por empresas dos países do Mercosul.
Eis senão quando, por causa das políticas ambientais e sobre o desmatamento da floresta amazónica, imbuídos dum “profundo sentido de Estado”, os Presidentes da República da França e do Brasil começam a tecer comentários sobre as respetivas mulheres... uma total baixaria! Uma vergonha!!!
Em conclusão: a França boicota a importação de TODOS os produtos de origem brasileira e veta (com o apoio da Itália, Bélgica, Alemanha e Áustria) a aprovação do Acordo do Mercosul pelo Parlamento Europeu. E quem sai por fim a perder? A economia brasileira e o povo brasileiro!
Não estamos agora a falar do Grupo Globo, do Estadão ou da Folha de São Paulo... eu não conheço UM (1) só jornal europeu (seja ele de esquerda ou de direita) que apoie o Presidente Jair Messias Bolsonaro aqui na Europa. Ele pode ter mudado de Chanceler, saiu o Embaixador Ernesto Araújo, mas a UE duvida que ele tenha mudado de política.
F**a a pergunta: para onde vai o Brasil?
Estoril, 31 de Março de 2021
José Chilão