02/12/2025
“Tremembé” — o que está por trás das grades
Como advogada, assistir à série Tremembé é um misto de indignação e alerta. A produção escancara não apenas a brutalidade do crime, mas a falência de um sistema que, em tese, deveria representar o Estado Democrático de Direito.
A primeira inquietação é o profundo desrespeito às vítimas e suas famílias. Ao dar protagonismo a quem cometeu atrocidades, a narrativa parece romantizar o cárcere e reduzir a dor alheia a mero pano de fundo dramático. O espetáculo do sofrimento humano não pode ser entretenimento — e muito menos instrumento para reabilitar a imagem de quem nunca demonstrou arrependimento.
Em segundo plano, mas não menos chocante, está a corrupção dentro do sistema prisional. A série revela — ainda que sem intenção — um retrato fiel de como o poder paralelo se instala nas penitenciárias: privilégios seletivos, celulares circulando livremente, agentes coniventes e um ambiente onde a lei do mais forte substitui o ordenamento jurídico. O cárcere, que deveria servir à reeducação e à segurança, transforma-se em um microcosmo da impunidade e da desmoralização institucional.
Por fim, é impossível assistir sem refletir sobre a ausência do Estado. Faltam políticas públicas, fiscalização, estrutura e, sobretudo, propósito. A prisão não cumpre função social nem jurídica quando o Estado se omite e delega ao acaso — ou ao crime organizado — o controle de seus muros.
A série Tremembé deveria provocar vergonha coletiva. Porque, ao final, não expõe apenas os condenados: expõe a nossa falência como sociedade, a fragilidade das instituições e a seletividade de um sistema que pune, mas não corrige.