24/03/2024
Ontem assisti a esse filme pela primeira vez, que está disponível no Prime. Quando lançado nos cinemas não senti vontade de assistir após ler a sinopse, pois, o centro do filme se passa todo sobre o julgamento de uma pessoa. Eu não queria usar o meu lazer para rever algo que me deparo diariamente na minha profissão de advogada. Com certeza é um filme muito bem feito, que se eu tivesse visto no cinema eu teria outra experiência, mas, valeu assistir porque a qualidade da obra e dos profissionais envolvidos é de excelência. O filme tem uma grande importância, pois, para mim, retratou com muita clareza a realidade de um processo judicial e pelo visto, issa realidade é universal, aqui ou em países de primeiro mundo, ao expor que a verdade precisa ser bem desenvolvida no que diz respeito a sua interpretação. Não basta ter uma verdade fora do processo, pois, dentro de um processo, o que importa, é como essa verdade vai ser estruturada processualmente. Ainda, o papel do promotor que presta seu serviço como um meio e não como um fim a se alcançar o cumprimento da lei é o que mais se vê no dia a dia no Judiciário mundo afora, nos papéis dos profissionais do Direito em geral, que focam mais em cumprir uma burocracia do que solucionar e apaziguar conflitos pensando num bem estar coletivo.
Bert Hellinger compartilhou um ensinamento sistemico de bastante valia quando destacou a importância de aceitar a “justiça cega”, isto é, de permitir que a vida flua sem tentar controlar o resultado. Ele acreditava que aceitar as coisas como são é o primeiro passo para superar a dor da injustiça. Ao permitir que a vida aconteça, mesmo quando parece injusta, somos capazes de encontrar equilíbrio e paz.
No atual estágio do Judiciário global nos deparamos diariamente com a tentativa de banalizar o mal, ideia essa aprofundada por Hannah Arendt e condensada numa frase de Pablo de Queiroz "Não existe lei que não possa ser discutida, cultura que não possa ser modificada ou verdade que não há de ser desconstruída. É tudo apenas uma questão de história, influência e poder".
No final do filme, quem realmente tinha uma influencia para o desfecho daquele processo acabou por ser uma grande revelação de bom senso, equilíbrio e justiça para o caso, que era o filho cego e menor do casal, mas, esse símbolo de justiça cega e equilibrada que ele representou demonstra o tanto que nossa justiça é vulnerável, pois, se uma criança é quem tem mais bom senso e equilíbrio para analisar fatos e provas e chegar numa solução mais adequada, reflete o tanto que os profissionais que nela atuam estão desfocados do seu ideal.
No final do julgamento a criança cega que era a única testemunha nos recorda que alguns dos elementos norteadores do alcance da Justiça Cega seria a pertinência e a ordem. O trecho da fala de Daniel dentro do filme reforça isso e compartilho para servir de grande inspiração: "Quando a gente não tem uma prova para saber como uma coisa aconteceu a gente precisa procurar mais, que nem no julgamento. Quando a gente já procurou em todo lugar e ainda não entende como aquilo aconteceu, acho que a gente precisa tentar descobrir porque aconteceu". (Daniel)