07/12/2023
RECOMENDO A LEITURA - ARTIGO DE GAUDÊNCIO TORQUATO
A força moral na Política. O maior trunfo de uma campanha.
No momento em que interessados começam a se habilitar para se apresentar como candidatos à prefeito e vereador em 2024, nasce a conveniência de se fazer um levantamento sobre os trunfos de uma campanha. O maior deles é a força moral. Será esta o contraponto ao estado de degradação que corrói parcela razoável de nossos quadros políticos. Trata-se de uma força que funcionará como imã, puxando a atenção e a adesão dos eleitores.
Quem tem força moral?
Os candidatos se esforçarão em dizer que a possuem. Ocorre que a força moral não é um conceito sobre o qual se possa cantar loas. Quem a carrega, não precisa discorrer sobre ela. Será reconhecido por isso. Gandhi, pobre e despojado, era um ícone de força moral. Arrastou multidões. Como a simplicidade, a força moral é a virtude dos sábios e a sabedoria dos santos. Quem possui esse tipo de força neste país? Poucos. Quem detém um conceito de moral é aquele cuja vida sai pura depois de um simples ensaio de observação. Não é levado a processo de investigação.
O ideal da coletividade
Tem força moral aquele que coloca o ideal da coletividade acima dos interesses personalistas de grupos e pessoas. Em uma sociedade acentuadamente corporativista como a nossa, isso é muito difícil. Políticos e candidatos cada vez mais tendem a fechar posições com expectativas e demandas setorizadas, provocando um reducionismo no ideário social que acaba inviabilizando políticas mais globais. Os detentores de força moral são aqueles que fazem da política uma missão, dentro da qual, com sacrifício próprio, se submetem a passar quatro, oito ou mais anos, servindo ao povo.
As regras do jogo
Não há como sofismar. Para a grande maioria de candidatos, os gastos de uma campanha política são absurdamente maiores do que ganharão, se eleitos para exercer um mandato de prefeito ou de vereador por quatro anos. Logo, as regras do jogo precisam ser esclarecidas. E as alternativas são estas: primeiro, as campanhas são patrocinadas por terceiros, cidadãos ricos que se postam ao lado das causas sociais; segundo, candidatos fazem o sacrifício de pagar de seu bolso quantias que jamais serão ressarcidas e, desta forma, oferecem uma contribuição cívica e um exemplo de amor pátrio; e - a alternativa mais plausível - ao longo do mandato, recuperam o gasto com altos juros e correção monetária superfaturada.
Valores morais
A política pouco atrai a cidadania moral. A moralidade, como se pode deduzir, se instala em espíritos cívicos desprovidos de ganância, distantes da arrogância e do utilitarismo imediatista que nivela quase todos os viventes de um mundo muito estruturado no apego aos bens materiais. Cidadãos de espírito moral abrigam valores como a modéstia, a humildade, a misericórdia, o senso de justiça, a fidelidade a princípios, a generosidade, o amor ao próximo, a tolerância e a coragem de ser honesto e autêntico em ambientes corrompidos, sujeitos a pressões e contrapressões, invadidos pela ligeireza das circunstâncias. Parece um decálogo religioso? Sim. Difícil de cumprir? Sim. Mas deve se tentar segui-lo à risca.
É fácil descobrir os espíritos morais
Os espíritos morais são pessoas de palavra, coerentes, com marca registrada no cartório do caráter. Sabem medir as palavras, ocupando-se de temas relevantes. São pessoas substantivas. O comportamento de uma pessoa com força moral é como um verso, no qual todas as sílabas são medidas. Alguém que chegou a essa altura do texto conhece, por acaso, alguém com esses atributos? Há pessoas com tal perfil, mas poucas, muito poucas, no mundo da política. É fácil reconhecê-las. Por isso, quando identificadas, elas devem ser conduzidas à missão na esfera pública. Basta olhar para seu passado, sua origem, examinar seu pensamento, seu legado. Basta analisar como se comportam, o que dizem, como falam.
Driblando a linguagem
Há candidatos que falam muito e dizem pouco. Quase nada se extrai de seu discurso. Alguns chegam ao exagero de querer transformar erros crassos em acerto ou em mais uma firula de marketing. São notados pelos dribles que dão na linguagem ou pela maneira como transformam o choro em riso ou vice-versa. Mas há quem fale coisas certas, no momento adequado, para atender às demandas legítimas e justas. Há pessoas que entendem a política como missão, não como negócio.
Contra modismos
O candidato com força moral não é levado a adulterar as coisas. A demagogia não imanta seu discurso. Não se faz de santo, nem de sábio. Ele é o que é. Não se agarra ao populismo, forma muito usada para não contradizer o sentimento popular e, assim, evitar o afastamento das forças sociais. Não promete escadas para se chegar ao céu. Como sabemos, a experiência brasileira revela que esse estilo complacente rende frutos apenas imediatos, porém de altos custos futuros. O candidato moral luta contra os modismos.
Retidão
É capaz de reconhecer erros, não como desculpa para ganhar eleição ou como forma de exorcizar os pecados, mas como um ato de profunda convicção. Elege a retidão como inspiração de vida. Confúcio disse: "se um homem consegue dirigir com retidão sua própria vida, as tarefas de governo não devem ser um problema para ele. Se ele não consegue dirigir sua própria vida com retidão, como pode dirigir outras pessoas com o espírito de correção? Quando, por cem anos, o país for dirigido por homens de força moral, a crueldade poderá ser vencida e o homicídio eliminado."
A utopia da transformação
Por fim, o político de força moral é sincero com seu sonho. Embala-se na utopia da transformação e, sobretudo, na crença de que qualquer avanço no caminho do progresso só será possível pela via da efetiva incorporação do povo no processo de controle e decisão das ações públicas.
(https://www.migalhas.com.br/coluna/porandubas-politicas/398483/porandubas-n-832