20/05/2026
O LOGOS DE DISSUASÃO DO VALOR DO OCIDENTE PELO PRÓPRIO OCIDENTE
(Uma seção de um longo texto meu, bem maior)
2. O logos de dissuasão das bases do Ocidente. O paradoxo da instrumentalização do déficit de dignidade, pela esquerda, como resultado desse logos.
O “logos” é uma das noções mais viscerais, continuamente enriquecida ao longo da filosofia. É entendido, entre as principais acepções, como “razão principial” que permeia o universo; é a uma só vez a inteligência constitutiva deste universo e aquilo que permite a inteligibilidade do mundo.
A forma de funcionar a razão foi conduzida pela esquerda para dentro de um universo concebido por premissas que adquiriram a forma axiomatizada, quase apodítica, o que quer dizer que a partir de sua inseminação deixaram de ser pensadas, funcionando como um ponto apriorístico a partir do qual processa-se a dissuasão da ideia da possibilidade de cognição da verdade na construção cultural e moral do Ocidente.
Signif**a que o condicionamento pensante já está direcionado por certos avatares cosmovisivos, que o farão estar sempre apto a negar qualquer dimensão apreensional e não relacional de sentido ou certeza, relativizando, “par excellence” a profissão de verdade que não seja por meio da lógica, estabelecendo um marco epistemolológico de degradação ontológica.
Dito doutro modo, não há verdades possíveis fora das relações lógicas que as suportem, sejam relações entre objetos empíricos ou abstratos. As categorias mentais possíveis são presa de um reducionismo, como se devessem sempre estar superditadas, todas, ao âmbito de uma só categoria de validação epistêmica que será a lógica. Logo, essa validação se dá por meio das tautologias (as verdades puramente lógicas) ou aquelas constatações empíricas, porém, articuladas pela lógica.
Os passos de Wittgenstein (que não por acaso foi comunista) e de toda a filosofia analítica no curso do empobrecimento epistêmico da linguagem se fazem sentir, aqui.
No contexto, emerge um mundo no qual o homem é equacionado nas relações lógicas que resultam nos seguintes pilares redutores:
a) as relações lógicas econômicas, surgindo o “homo economicus”, o contexto social embasado puramente na economia, aí exsurgindo Marx;
b) as relações lógicas biológicas redundando numa antropologia darwinista, o homem como puro ser biológico, e neste contexto desdobrando-se o reino dos instintos, amparados no horizonte dos sentidos físicos, onde estará a libido e seu papel central no exame da realidade psicológica tento Freud por pioneiro;
c) as relações lógicas inerentes à linguagem pelo que a filosofia analítica virá a se tornar um farol de deposição da legitimidade das expressões metafísicas e a formação da mente será invertida, com a linguagem precedendo o aparelho mental, isto é, formando a mente e a maneira de pensar.
Estes vetores de entendimento convergem num denominador comum: o relativismo. Tudo será “conforme”, isto é, relativo a uma condição qual seja a condição econômica, biológica, sexual e/ou linguística, não havendo verdade senão aquela que esteja “conforme”, isto é, conforme o meio.
Não importa aqui inventariar os antecedentes filosóficos, ou seja, averiguar se do kantismo procedeu o empirismo moderno pelo qual enveredaria Marx, transpondo a dialética hegeliana ao materialismo ou se Nietzsche, como pós-kantiano, veio a afirmar a realidade exclusiva do mundo evidente, pois, o que nos ocupa precipuamente é a redução do homem ao status de “coisa entre coisas”, como conciliação ontológica com os seres animados e inanimados, por compartilharem o mesmo status de objeto no mundo,
Desses vetores dimanam uma série de subconjuntos entre os saberes.
Por exemplo, a ideia do psicologismo (a lógica como resultado da empiria) deriva do materialismo inerente aos três, por não haver nenhum acento metafísico ou anamnese, enfim, um conhecimento que precede a experiência.
O relativismo moral em contraposição à antropologia etnocêntrica, as posições fisicalistas na filosofia da mente, serão um fruto combinado dos três, os dois primeiros vetores que expressam a condição reduzida do homem à matéria, e o terceiro vetor pela impossibilidade de estabelecer verdades morais por ser objeto metafísico, assim intangível pela linguagem.
O próprio existencialismo será também rebento desse materialismo conjuntural dos três vetores, na célebre afirmação sartreana de que a existência precede a essência, servindo como uma coroação da recusa da metafísica de uma essência ontológica e da ecceidade (aquilo sem o que a coisa não é), entendida a essência como o que a coisa porta consigo mesma e a substância o que subsiste, por ela, em todas as transformações (posição aristotélica), estando tudo isso já contemplado pre-socraticamente no paradoxo do barco de Teseu, proposto por primeiramente por Plutarco.
A sociologia será consequência direta do primeiro vetor, contemplando o estado de produção no homo economicus, pelo que as relações sociais serão talhadas na esfera da superestrutura, conforme classif**a o marxismo.
A religião será subjetivação das relações econômicas transposta a uma justif**ação não econômica do estado de sujeição de uma classe à outra.
Eu desafio, mesmo, que consigam me apresentar um só saber, entre as ciências normativas (ciências do dever ser) que não passe pelo filtro desses três vetores da equação materialista.
Formou-se assim um "logos da dissuasão" contra o Ocidente, que é como nomeio o éter pensante que se formou neste lastro para condensar num reflexo pavloviano o pensamento que degrada tudo que venha do Ocidente.
Evidentemente, não estou aqui designando o assento ontológico da palavra “logos”, que concebo como realidade metafísica, como a presença do princípio inteligente do universo, a ligadura da razão, o Verbo, etc. Apenas aproveito o termo para designar uma conformação da razão pela qual o pensamento f**a desidratado de qualquer outra via de entendimento senão aquele outorgado pela esquerda. Esse “logos” aqui, longe de ser uma realidade ontológica que acato como existente e fundamental, é aporético, ou seja, na verdade, a negação do pensar.
Já se entende facilmente, sendo ocioso repeti-lo, que a esquerda age perspectivando seus ideais na coluna da sociedade, e o faz se introduzindo subliminarmente para formar este logos.
Denomino, portanto, este processo como um “logos de dissuasão das bases do Ocidente” porque, como um logos, o conjunto dos esquemas mentais formados pelo identitarismo, o wokismo, o feminismo, a misandria, o ambientalismo, a qualif**ação da servidão moderna como exploração econômica, a ideologia de gênero e diversos outros elementos do tipo fazem a civilização ocidental voltar-se contra si mesma de forma a aceitar a culpa da cultura ocidental. Esta passa, por essa ação do logos dissuasivo, a ser assumida como um mal, chegando a ponto de desprezar a maravilhosa síntese entre a cultura helênica e a tradição semítica da qual resulta o moderno Ocidente, como se fosse construída por sublimações dos móveis econômicos e nada tivesse a ser preservado.
Logo, a auto-ojeriza do ocidente protagonizou a luta, de maneira que os que se opõem a isso estão contra a emancipação dos oprimidos, acalentada nessas temáticas acima citadas.
Foi preciso, para os esquerdistas atuais, criar uma ideia de justiça que sensibilize as pessoas mediante a exposição do déficit de dignidade humana dos oprimidos, mais do que discursar diretamente contra a desigualdade econômica, que passou a vir infusa nessa percepção direta do estado de indignidade.
A dignidade humana, como digo sempre, foi roubada pela esquerda da Imago Dei, o homem feito à imagem e semelhança de Deus dotando-lhe, por isso, de um status especial na Criação, de forma que para a esquerda somente será recuperada essa dignidade pela consciência social, habilmente sintonizada com a imagética dos desafortunados e discriminados, polarizando-se os socialistas como se fossem eles detentores exclusivos da bandeira da dignidade.
A plataforma de ação da esquerda se presentificou inseminadamente, em doses homeopáticas na sociedade (enquanto no meio acadêmico prodigalizava-se a pulso firme, transmudando-se o ideário da luta de classes em inclusivismo social).
Esse inclusivismo virou uma espécie de “cláusula de santuário” contra o qual levantar a palavra, por conta de deformações ou ampliações indevidas tramadas com o fito de torná-lo o novo estatuto moral, transformava automaticamente o emitente de críticas em pessoa que “odeia a diferença”, f**ando incabível postular contra a relativização da moral ou da verdade.
De aí nasceu, assim, uma das formas estereotípicas da imputação de “discurso de ódio”. Afirmar que existem os gêneros se***is como standards naturais, mostrar que há versões de historiadores sustentando que entre os povos negros houve sociedades compostas por pessoas negras que enriqueceram escravizando outros negros, ou que islâmicos praticaram a escravidão negra em larga escala no continente africano, passou a ser o mesmo que odiar aqueles que têm orientação sexual distinta, ou negar à raça negra o reconhecimento de sua discriminação e sofrimento.
Postular contra o humanismo secular, entendido como redução da realidade às relações e condições humanas como centro da história, que fundamenta antropocentricamente a civilização ocidental com a dispensa de referências metafísicas, passou a ser algo emparelhado com o fascismo e a religiosidade que servira de apoio à classe abastada.
Logo, esse condicionamento da mentalidade é o que tem permitido intercambiar a rejeição dessa cosmovisão materialista com “discurso de ódio”.
Não é uma percepção de facilidade táctil, mas qualquer um que preste mais atenção consegue enxergar “o id esquerdista”, medrando sua genética conforme seu surrado DNA totalitário mediante o disfarce do inclusivismo, passando facilmente, de aí, a transbordar para outras categorias com o corolário do “discurso de ódio”.
Defender a legitimidade do movimento de 64 antes do endurecimento militar, falar contra o anticristianismo da esquerda atribuindo-o a Lula, dizer que Lula era um “descondenado”, dizer alguém que vai investigar a polícia federal, tudo isso passou a ser “discurso de ódio”, como se ser veementemente contra o que Lula representa fosse querer seu mal pessoal.
No polo oposto as manifestações de Paulo Betti, Hélio Schwartsman ou Zé Abreu desejando a morte de Bolsonaro, ou jogo de futebol com a bola tendo o rosto de Bolsonaro, como se fosse a sua cabeça, nunca eram vistas como grave deformação moral.
As medidas totalitárias empanadas nesse combate ao “discurso de ódio”, inicialmente encampando as causas identitárias para depois mimetizar com esse epíteto toda a oposição à esquerda no papel de redentora das injustiças sociais a partir do inclusivismo (mera etapa da luta de classes aproveitando o embalo do “capitalismo humanitário”) cooptando o egocentrismo e a presunção intelectual de juízes ignorantes, foi uma das estratégias mais bem sucedidas operadas no Brasil para chegar-se a um “golpe de Estado branco”, ou “golpe de Estado judicial” como dizem outros, subvertendo as liberdades no Brasil.
Toda empreitada não foi nada mais, nada menos, do que a alma genética da esquerda ingressando na sociedade por meio desses artifícios.
É por tal razão que improcede a desculpa de que a as atrocidades cometidas pela esquerda traduzindo-se em milhões de cadáveres não necessariamente repetir-se-ão no Brasil; essa condição distópica só não se concretizou aqui, como vemos, porque ela ainda não tem o poder total, mas onde ela vai se arquiteta o processo de supressão das liberdades, como comprova-se com o quinhão de poder que já adquiriu mediante o STF, ao incrementar este ensaio totalitário no Brasil, confirmando a regra.
Bastaria ler as últimas páginas do “Manifesto Comunista” quando Marx fala que o comunismo será implantado, entre outra coisas, gradualmente, com tributos cada vez maiores, até o Estado (numa forma bem afeiçoada ao fascismo - digo eu), ter a inteira custódia da iniciativa privada.
Marx fala dessa implantação gradativa a despeito da tomada violenta do poder coisa que ele enuncia explicitamente, que seria seguida das medidas para fazer definhar, aos poucos, o capitalismo.
É assaz interessante para confirmá-lo, ver como o comunismo foi estabelecido na Alemanha Oriental (RDA).
Diante da vizinhança fronteiriça ocidental, o bloco soviético decidiu transformar a sua parte na Alemanha na vitrine da prosperidade comunista para o mundo. A RDA seria convertida numa espécie de “campo de Theresienstadt econômico do comunismo” (para quem não conhece, informa-se que o campo de concentração de Theresienstadt foi transformado pelos nazistas numa colônia-modelo para convencer a Cruz Vermelha de que os judeus estavam sendo bem tratados).
Logo, não foi, por isso, truculenta e imediata a transformação da RDA num regime comunista, vindo a ser medrada exatamente pelo processo de asfixia da iniciativa privada até que milhares de empresas particulares foram sendo fechadas.
O processo foi tão dissimulado que a princípio não se viram na necessidade de construir o Muro de Berlin, pois a migração livre de pessoas para o lado ocidental era visto pela URSS como desencargo da obrigação de alimentá-las, até que se deu conta de que todos os cérebros estavam fugindo do lado oriental.
Não obstante, será que Alexandre de Moraes indiciaria Marx no crime de “tentativa de abolir o Estado Democrático de Direito” pelo que está escrito no Manifesto Comunista, ou em suas “Críticas ao programa de Gotha” quando o filósofo assume a “ditadura do proletariado” como meta?
Reparem que de início, na Alemanha Oriental, até mesmo o “pluralismo político” foi simulado. Se na ADPF 1045 se quer proibir interpretações do art. 142 da Constituição que legitimem uma intervenção militar para conter a asfixia dos demais Poderes pelo Poder Judiciário, muito mais, sob o ângulo da coerência, deve-se censurar os livros de Marx e manter sob firme cabresto todos os professores universitários de esquerda.
É certo que para Marx, Engels e Lenin, as classes não serão demovidas do seu poder sem ser pelo terror. Pela mesma razão as prisões em massa seguiram-se na Rússia logo após a revolução.
Mitigar a liberdade de expressão política e ideologicamente, e não por elementos que incluem bens penalmente tutelados, não relacionados com visões ideológicas, é o licenciamento para o arbítrio. A atecnia jurídica de Alexandre libertaria facilmente o pretexto censor para qualquer coisa. Bem, por que não censurar Marx, já que querem criminalizar a hermenêutica do art. 142?
O STF, como podemos ver em meu artigo sobre “a longa noite de cristais nos últimos dias de Pompéia”, aproveitou habilmente essa cortina randômica do “discurso de ódio” que não passa, como disse Musk, do “discurso que eles odeiam”, para tentar, pela lavra de Gilmar Mendes, conceituá-lo como rejeição ao adversário político.
Depois Gilmar Mendes iria enriquecer este conceito fornecendo a chave mestra de seu pensamento em artigo de 08/01/2024 na Revista Conjur: segundo Mendes o discurso de ódio fora pavimentado por Deltan Dallagnol e Moro, implodindo os partidos tradicionais, havendo em Bolsonaro o sequestro de símbolos nacionais. Dito doutro modo, para Mendes, odiar a corrupção e a vampirização dos recursos públicos pelos donos do poder e amar o Brasil como um grande país que pode dar certo, livre da casta política que o consome na ilicitude, virou “discurso de ódio”, claramente manipulando a expressão com outros propósitos.
Bem, podemos ver que este processo de incrementação gradual da esquerda no seio do poder prefaciando-se pela gestação das mentalidades é algo muito mais concreto, mas também muito mais complexo, do que Alexandre e o youtuber das focas podem vislumbrar.
A sociedade ocidental moderna, e principalmente a brasileira, está fortemente compenetrada, viciosamente, por este “logos de dissuasão” derivado da esquerda. "
Felix Soibelman