01/09/2026
Esses dias, acompanhando uma conversa no grupo do lugar onde moro, uma coisa me chamou atenção.
A comunidade quer uma praça. Uma demanda legítima, antiga e absolutamente compreensível.
No meio da conversa, surgiu a ideia de mobilizar apoio para determinado candidato porque ele poderia “agilizar” a praça. Em outro momento, um serviço de limpeza urbana apareceu quase como resultado da intervenção de alguém que teria falado com um deputado do território.
E é justamente aqui que mora uma confusão política que ainda precisamos aprender a enxergar.
Um representante político pode cobrar, fiscalizar, encaminhar ofícios, articular órgãos públicos, apresentar emendas, pressionar a administração e ajudar uma demanda legítima a entrar na agenda pública. E isso faz parte da política.
Mas a praça não sai do bolso dele, o serviço público não pertence a ele. Nem o dinheiro é dele.
E o direito da população não nasce da sua generosidade.
Quando começamos a agradecer como favor aquilo que é realizado por instituições públicas, com recursos públicos e para atender necessidades públicas, criamos uma relação perigosa: o cidadão deixa de se perceber como titular de direitos e passa a se enxergar como beneficiário da boa vontade de alguém.
E essa lógica não aparece apenas na praça do bairro.
A própria Lei Maria da Penha é um bom exemplo. Ela não surgiu porque, espontaneamente, o Estado resolveu ser generoso com as mulheres. Sua construção está ligada à luta das mulheres, à exposição da insuficiência da proteção existente e à responsabilização do próprio Estado brasileiro por sua resposta negligente à violência doméstica.
O ponto é importante: vida, integridade, segurança, saúde e dignidade não são presentes concedidos pelo poder público. São direitos cuja proteção impõe deveres ao Estado.
A lei, a política pública, o serviço, a praça, a iluminação, a limpeza urbana, a escola, o posto de saúde não deveriam funcionar como moedas para produzir gratidão política.
Lembre-se disso nessas eleições: