27/08/2023
Hoje me lembrei de minha mãe, indo pras cozinhas por estas roças adentro, nos dias de domingo em que a gente saía de manhã e voltava de noite.
São as melhores lembranças que tenho da vida infância.
Da briga para sentar do lado de Mainha e do lado de Painho, pois Rodrigo sempre era no meio. Até o final da vida agem, quando a gente voltava pra casa à noite, antes do Fantástico, metade dormindo em cima das frutas e legumes que traziamos para a semana toda.
Domingos perfeitos da infância. ❤️
Eu era muito nojenta pra comer, não era questão de paladar, era nojo mesmo. A única comida que eu confiava em comer fora, era carne do sol, porque era feita na banha e no óleo, eu sabia que a alta temperatura mataria tudo que me dava nojo, principalmente as gorduras, a carne do sol dava pra enxergar a gordura branco-amarelada, fácil de cortar. E o pirão de Leite, Mainha fervia o leite, certeza de tá tudo limpinho. Eu era nojenta.
Mainha nunca comeu antes de um filho. Ela corria pra cozinha, fazia a comida de todos numa tigela, preferencialmente. Seus filhos, né? Mais prático. Depois saía distribuindo aos bolos ou colocava nos pratos.
O meu era o último, ela primeiro me testava para eu comer junto com os demais. Quando não dava certo, fazia meu pirão.
Demorei muito e sinto dizer, com 48 anos ainda não consigo fazer igual, chega perto mas nunca será aquele pirão de Mainha, amassado nos seus dedos gordos de amor, carregado de graxa do fundo da panela, doce e salgado ao mesmo tempo, a textura perfeita, nem muito enfarinhado nem molengo parecendo mingau. Tem até o tempo certo de esperar a farinha inchar. O de Mainha era o melhor.
Minha vó Lili também fazia um pirão delicioso, me levava escondido, porque todos os netos tinham que comer o feijão e o ensopado. Eu comia debaixo da mesa, antes de todo mundo, porque na hora ela dizia: Jack já almoçou.
Um dia, fazendo as farofas da vida pros meus filhos, Painho inocentemente falou: você vai estragar esses meninos. Deixa eles se servirem sozinhos, minha filha.
- Estraga não, painho. É afeto de mãe, deixa eu fazer enquanto eu posso e eles gostam.
Memória de comida afetiva. Hoje fiz pirão.E o afeto me alimentou a alma. ❤️