20/02/2019
Muitas mães e pais, empolgados com o nascimento ou com as artes que seus lindos filhos fazem, publicam cada passo de seus bebês. O parto, a primeira ma**da, o primeiro banho, o primeiro passo...e muitas, muitas bagunças que fazem no dia a dia. Na empolgação, muitos pais e responsáveis acabam superexpondo seus filhos.
O problema é quando os pais publicam muito e, principalmente em cenas que são engraçadas. Um ponto importante é pensar: será que meu filho(a) vai achar isso engraçado quando estiver mais velho? Será que é para qualquer pessoa? Vale a pena deixar este momento totalmente público ou apenas no círculo de amigos e parentes mais próximos?
Infelizmente estas imagens das crianças podem ser usadas fora de contexto, gerando humilhações e até mesmo ser associadas a conteúdos criminosos em sites ilegais de p**nografia. Sites desta natureza não estampam apenas nudez, mas pessoas fazendo coisas normais. Os pais são responsáveis pelos filhos e devem zelar pela privacidade e imagem dos mesmos, inclusive no mundo digital.
Já tivemos casos em que a imagem de uma criança foi associada a um meme que viralizou com milhões de comentários, ofensivos em nítido cyberbulling. Casos de sequestros por conta de fotos e comentários. Casos de assédios (grooming) diante da postagem de fotos. Em outro caso, a foto em alta resolução foi usada em campanhas publicitárias, sem o consentimento dos pais. Em casos ainda mais graves, foi feito o morphing, ou seja, editaram a imagem e colocaram o rosto da criança em um corpo nu ou em situação de prática sexual, com compartilhamentos em grupos de p**nografia.
Importa dizer que o Estatuto da Criança e do Adolescente, no artigo 241-c, pune o ato de simular a participação de criança ou adolescente em cena de s**o explícito ou p**nográf**a por meio de adulteração, montagem ou modif**ação de fotografia, vídeo ou qualquer outra forma de representação visual, com pena de reclusão de até 3 anos.
Assim, a recomendação é jamais postar fotos que identifiquem a rotina do filho ou mesmo com pouca roupa. Muito cuidado ao expor a intimidade do seu filho, pois hoje ele pode não entender, mas este conteúdo pode permanecer por tempo indeterminado na rede, sendo que pode causar grandes constrangimentos no futuro. Será que seu filho, no futuro, pode reclamar da superexposição que trouxe a ele? Pode ser que jamais retire este conteúdo do ar.
Se realmente tiver que publicar, avalie as configurações de privacidade, tenha e mente como a rede social trata as fotos postadas, lendo os termos de uso. Evite postar fotos de crianças com biquíni, roupas intimas ou nuas ou mesmo comentários sobre a rotina e hábitos da criança, pois constituem grande perigo e insumos importantes nas mãos de pessoas mal-intencionadas. Nunca se esqueça, o importante mesmo é postar o que contribua para a autoestima da criança. Faça sempre a seguinte reflexão: Para que, como e para quem postar?
Assim, certamente evitará danos imensuráveis ao futuro destas crianças
Um jornalista da tecnologia do “The Wall Street Journal” deu ao fenômeno o nome de Sharenting, que seria uma junção de duas palavras norte-americanas: share (compartilhar) e parenting (termo ligado à concepção dos cuidados envolvidos na maternidade e paternidade). Essa união nada casual emergiu com a onda de postagens de fotos e vídeos desenfreada que traz a público boa parte dos momentos vividos no âmbito privado com a família, os amigos e pessoas próximas.
Segundo Stacey Stanberg, advogada americana da Universidade da Flórida que publicou um artigo a respeito do Shareting, em março de 2016: “Quando pais dividem informações sobre seus filhos na internet, eles o fazem sem o consentimento da criança. Esses pais agem assim como guardiões/protetores da história pessoal da criança e, ao mesmo tempo, como narradores/divulgadores da vida dela. Esse papel duplo na definição da identidade digital do filho deixa a criança desprotegida”.
Para essa advogada e outras instituições (como o “Alana”, por exemplo, em sua campanha sobre Criança e Consumo) que se dedicam a defender os direitos fundamentais da criança e do adolescente, novas leis precisariam ser pensadas a partir desse panorama para dar algum respaldo à integridade infantil. Além disso, seria de extrema importância que esse assunto fosse profundamente debatido em sociedade, a fim de que os adultos possam receber as orientações necessárias para fazerem escolhas mais conscientes a respeito do compartilhamento digital. Pensar sobre essa vida futura como um livro aberto que não pode ser filtrado nem contado ao seu próprio modo pode ser um norte para começar a guiar nossas atividades virtuais. Mas o caminho é longo e muito ainda precisa ser discutido para se contemplar a infância plena e segura.