14/09/2024
A DIALÉTICA DA VIDA
Por ANTONIO SALUSTIANO FILHO*
No coração da cidade grande, num ponto de ônibus apinhado de pessoas, cada uma delas ocupada com sua pressa cotidiana e com destino a um lugar qualquer dessa megalópoles; todos esperavam, impacientemente, a condução, o transporte que os levariam para o seu destino. Eis que, de repente, surge um pregador. Um homem, vestido com uma roupa surrada e com um pano em seu entorno. Tinha o aspecto de homem pobre e outras características que o desqualif**avam como um sujeito normal. Parecia um desse moradores de rua.
O pregador iniciou um discurso que perturbou a minha vida e da daquela gente que, mesmo nos esforçando para ser indiferentes, o escutávamos.
Dizia ele, em alto e bom som, numa fala razoavelmente bem-elaborada:
“Somos todos iguais. Não importa a função que você ocupa no mercado de trabalho, o salário que recebe no final do mês, a casa que mora, a comida que com qual se alimenta, a roupa que veste e a droga de vida que você leva! Você tem na barriga o mesmo que eu, o que todos temos: m***a! Defeca fedorento, igual a mim e a todos os outros. Por mais que queiramos ser diferentes uns dos outros, pelo menos as nossas fezes nos fazem iguais!”
Todos o escutávamos. Somente eu não o ignorava.
No início daquela conversa eu tive vontade de rir. Era uma situação cômica. Fiquei firme para não ofender aquela gente ofendida e indiferente. Também não queria demonstrar que prestava atenção à fala do maluco. Havia um fundo de verdade naquele discurso. As pessoas ali se igualavam pelas fezes.
Enquanto me esforçava para entender o discurso do tal sujeito, ele retomou a sua fala. “Você e eu, todos fomos absorvidos pelo movimento do rebanho. O que desejamos nós, aventureiros dessa epopeia desgraçada, que nos obriga a viver, permanentemente, a insignificância do que somos? Os ricos que desejam mais riquezas ou tentam busca-la, a todo custo; querem manter-se em suas posições, por isso exploram os pobres e não se misturam com os empobrecido pelas razões de suas riquezas.”
Fez uma pausa, olhando para um dos seus ouvintes gritou:
“Você não é rico! E se fosse, não seria diferente desses infelizes que estão ao seu lado”, disse, apontando os demais.
“Você é pobre!”
“Deu uma gargalhada e cantou uma cantiga de roda, daquelas que se cantavam na minha infância:
“Eu sou pobre, pobre, pobre de marré, marré, marré; eu sou pobre, pobre, pobre de marré deci, (...)”.
Parou de cantar e, sem dar tempo para qualquer manifestação de protesto daquela gente, voltou a falar.
“Os pobres, que desgraçadamente deixam-se explorar pelos poderosos, buscam sua sobrevivência submetendo-se aos mandos dos senhores de escravos de hoje. Enquanto lutam, sonham, quem sabe um dia tocado pela sorte, em ganhar na loteria e ser como os ricos. Pobre só f**a rico assim, quando ganha na loteria. Acredita na sorte. Ledo engano! Falsa ilusão! Bando de idiotas! Pobres serão sempre pobres porque acreditam, por força da fé que lhes ensinaram a professar, mesmo no silêncio de suas crenças, que esse é o destino de quem nasceu assim. Os pobres têm consciência de que não tiveram a possibilidade de escolher um lar abastado para nascer e, por conta do destino forjado pelo sistema, nasceram num berço paupérrimo. Ignoram que ninguém nasce pobre por vontade de Deus. Os que pensam assim, fiquem sabendo que no inferno há lugar para todos vocês! Mudem de vida ou perecerão todos!” – vaticinou o louco.
Não pude me conter. Soltei uma gargalhada.
Aquele não fora um riso de deboche ou de algo engraçado, mas um riso de satisfação vindo do inconsciente. Ri porque o tal sujeito falava o que eu talvez gostasse ter falado para mim mesmo, ou para essa gente cega, que também acreditava nas coisas que foram enfiadas em nossas cabeça.
“A desgraça tem seu próprio antídoto”, constatei mentalmente.
A seguir, sem o riso da desgraça alheia e minha também, refleti, considerando:
“Como se sente essa gente angustiada em sua pobreza, humilhada com a espera e a demora do ônibus, desesperada pelo atraso em seu horário e, ainda, sendo apoquentada por esse maluco, falando mal de sua crença, pondo em cheque a esperança desses e dessas coitado(a)s? Que situação! Que vida!”
Aquela cena não tinha nada de engraçado e o discurso do louco não eram palavras jogadas ao vento. Era a tragicidade da vida porque demonstrava a condição real da maioria de homens e mulheres que nas várias etapas da história da humanidade, nas diversas formas dos sistemas de produção, foram vítimas do sistema produtor de miseráveis.
Ao refletir sobre a desgraça alheia, e igualmente a minha, senti uma ponta de tristeza vindo lá das profundezas do ser e que, aos poucos, tomou conta de mim. Aquela sensação de vazio, a mesma que sempre me acometia em meus dias entediados. Mais uma vez, o sentimento de ser nada em meio a tantas coisas efêmeras. Era como se tudo naquele cotidiano ma***to fosse destituído de sentido.
“Será essa a razão da minha crise?”, questionei no silêncio de minha reflexão.
“A alma humana tem uma ligação com a mente coletiva do universo, por isso, capta o sofrimento da alma do mundo, que sofre nossas dores. Somos partes do todo e, se sofremos, sofre conosco o universo; e a dor da imensidão nos é devolvida potencializada. Assim, ao não superar nossos fracassos, esses se transformam em sofrimentos”, recordei-me desse pensamento ali no burburinho da cidade agitada pela dinâmica da urbanidade.
Havia um sentimento de pertença ao mundo. A insignificância do momento parecia corresponder ao meu estado de ânimo. Não tinha qualquer controle sobre mim e ao que acontecia à minha volta. Além de não ser o senhor das minhas vontades, era levado por uma força estranha ao estado de pertencimento ao contexto. Pertencia ao anonimato coletivo, ao rebanho sem rumo, comandado pelo movimento da efemeridade do existir; sofria pelo vazio absoluto, no vácuo de um viver sem sentido. Amargava a solidão da minha existência.
Noutra ocasião, ouvi de alguém que:
“Quem dá sentido às coisas é o ser humano, mas quando esse perde o sentimento de pertença positiva ao universo, nada tem sentido”.
Mais uma vez, eu mergulhava num emaranhado de emoções negativas. Só que, agora, começava a desconfiar das razões da crise vivenciada e a sentir lampejos de esperança porque, como já dissera, a crise não precisa ser o fim.
Eu não estava excluído do auditório do maluco pregador. Suas palavras proferidas eram dirigidas também a mim.
Enquanto o homem falava, eu fui tomado por um turbilhão de sentimentos niilistas, mas a esperança não se perdeu na efervescência do momento.