14/03/2014
O Centro de Referência de Direitos Humanos de Salvador passa a partir de hoje a “descomemorar” os 50 anos do golpe militar de 1964. O objetivo é mobilizar a sociedade para uma participação ativa na consolidação da democracia e respeito aos direitos humanos no Brasil. Como forma de manter ativa a lembrança das violações aos direitos humanos ocorridas no período da ditadura militar, compartilharemos ao longo do mês diversos informativos sobre o tema.
AS PRIMEIRAS VÍTIMAS DO GOLPE MILITAR DE 1964
Esses dois estudantes pernambucanos foram mortos a tiros, no próprio dia 01/04/1964, em Recife, quando participavam de manifestação de rua contra a deposição e prisão do governador Miguel Arraes. De acordo com notícias veiculadas na imprensa, eles foram as primeiras vítimas fatais do regime militar naquele estado. O episodio é narrado no livro O caso eu conto como o caso foi, de Paulo Cavalcanti.
O Jornal do Commercio, na edição seguinte, assim descreveu o ocorrido: ”Na esquina Dantas Barreto – Marques do Recife, os soldados pararam. Os estudantes continuavam a gritar. Os soldados tomaram posição. Um disparo para o ar foi feito. Os estudantes continuavam a gritar. Novos disparos, agora em todas as direções. Os gritos aumentaram e dois caíram, mortos. No solo, ainda, alguns feridos”. Depoimento de Oswaldo de Oliveira Coelho Filho à Secretaria de Justiça de Pernambuco, que consta dos autos do processo no CEMDP, dá detalhes sobre o dia da morte dos estudantes. “Eles carregaram a bandeira brasileira, entoaram o Hino Nacional e, em seguida, passaram a gritar contra os soldados e a jogar-lhes pedras e cocos vazios, que se amontoaram no meio-fio. Então, o piquete militar fez disparos diretamente contra eles com tiros de revólveres”.
Inicialmente, ambos os processos foram indeferidos pela comissão especial, em reuniões de 1997 e 1998. Reapresentados depois da ampliação da Lei n° 9.140/95, foram aprovados por unanimidade quando entrou em vigor a nova redação introduzida em 2004. Conforme o relator dos dois processos, “a farta matéria jornalística juntada aos autos permite concluir que Jonas e Ivan foram vítimas de um conflito de rua na cidade do Recife, portanto em plena adequação à legislação vigente que contempla os que tenham falecido em virtude de repressão policia sofrida em manifestações publicas ou em conflitos armados com agentes do poder publico”.
De acordo com o laudo do legista Salgado Calheiros, a causa mortis do secundarista Jonas Jose de Albuquerque Barros, morto aos 17 anos, foi “hemorragia externa decorrente de ferimento penetrante da face com fratura cominutiva do maxilar inferior e coluna cervical por projétil de arma de fogo”.
Ivan da Rocha Aguiar havia sido secretario do Grêmio Joaquim Nabuco e, posteriormente, vice-presidente da União dos Estudantes de Palmares. No segundo processo impetrado pela família, o relator afirmou que a documentação não deixava duvidas de que Ivan morrera em virtude de ferimentos à bala – em seu atestado de óbito, o legista Nivaldo Ribeiro, do Hospital Pronto-Socorro de Recife, registou como causa da morte “hemorragia interna decorrente de ferimentos transfixiantes no hemitorax direito” – e votou pelo deferimento do processo.
Texto extraído da obra: Direito à verdade e à memória: Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos / Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Politicos - - Brasília: Secretaria Especial dos Direitos Humanos, 2007. (Paginas 56/57)