08/09/2024
19. Da falha de líderes
A queda recente do ministro Almeida me fez ver comentários de que há mais homens cometendo violências dentro dos movimentos, seja negro como na esquerda em geral, e que isso é naturalizado e até protegido. Eu próprio cresci vendo isso, da pior forma possível.
Tive que proteger pessoalmente minha mãe, desde antes de adolescente, de situações que envolveram quase todo o espectro da Maria da Penha. Quando me envolvi com a política estudantil e com a cena cultural, vi outros tantos casos, seja feitos por homens negros, pardos e brancos.
Alguns praticaram violência física, psicológica, abandono parental, outros eram simplesmente babacas e traíam as parceiras com outras meninas do próprio movimento, enquanto alegavam ser monogâmicos. Isso me fez ver que tem muita gente que quando sobe num palanque e gesticula diante de câmeras e holofotes, tem um discurso muito bonito e aparentemente coerente, mas que assim que chega em casa destrói tudo o que falou.
Esses cretinos cedo ou tarde são desmascarados. Não conseguem sustentar o personagem por muito tempo, pelo menos não diante de todo mundo. Alguém acaba vendo o que é o ele real, o ele verdadeiro fora do uniforme de guerrilheiro popular ou de lutador de Wakanda. Sem o boné de Chê e sem a roupinha do Pantera Negra, tem gente que f**a muito, muito feia.
A questão é que ainda assim existe muita gente séria. Pessoas que evitam falar alto, falar grosso, mas estão sempre ali para dar a mão um companheiro em necessidade, que sempre colam nos eventos. Essas pessoas veem ídolos falhar, colegas vacilarem diante de vícios, casais de amigos brigarem, mas não param de seguir com a luta.
Tomam a liderança quando outro líder cai ou desiste, f**am ao lado do colega até ele f**ar sóbrio, tentam fazer o casal do amigos voltar as pazes. Essas pessoas não fazem textões. Não se jogam diante das câmeras fazendo coisas heroicas. O que eles fazem é o justo e necessário, todo dia, um dia após o outro.
Por isso os movimentos não param, mesmo havendo um ou outro ser ruim. Porque tem gente que acredita que as coisas vão ser melhores, e constrói as melhorias que deseja sem buscar estrelismo.
Eu pessoalmente acho hipócrita a maneira que o movimento negro e os movimentos populares são tratados. Todo mundo quer dizer que tem apoio ‘’das massas’’, mas quando ‘’as massas’’ exigem demandas específ**as ao seu segmento, dizem a elas: ‘’não, isso aí que você quer já é identitário, vocês não têm qualif**ação para esse tipo de coisa.’’ Ou seja, você é bom para ‘’prestar apoio’’, mas quem vai ser deputado federal ou senador vai ser meu filho que cresceu na Pituba e fez pós em Londres.
Existe parte de nossa esquerda, que mesmo sem admitir, ainda se comporta dessa maneira, e ainda usa como exemplos casos como o recente para mostrar que as lideranças não são de fato qualif**adas. Isso é meia verdade: é de fato necessário esforço para que se façam checagens melhores antes que qualquer um chegue a níveis mais altos.
Porém, ainda assim, boas lideranças, qualif**adas e sem manchas no currículo, existem e não estão recebendo o que deveriam. Que se pare de chamar o legítimo de ‘’identitário’’, e que não se faça mais o periquito levar a fama do papagaio. As massas não querem mais ser só massa, querem ser o engenheiro da obra.
Nicolas Vladimir