24/10/2025
📓Nossa indicação literária dessa semana é o livro O Quarto de Despejo.
O Quarto de Despejo, de Carolina Maria de Jesus, foi lançado em 1960 e se passa ao longo da vida da autora que nascera em 1914 em Minas Gerais. Ela chegara em 1947 à cidade de São Paulo e o livro é o conjunto de 20 diários escritos pela autora entre 1955 e 1960 diário, com dia e mês, que conta - e por vezes desabafa - a luta diária de uma mãe solo de 3 filhos (Vera Eunice, João José e José Carlos) que vivia no que depois se transformou na famosa favela de Canindé.
Ela era uma catadora de papel; na verdade, era do lixo que tirava tudo: a comida para ela e seus 3 filhos, as sucatas para vender, as roupas e os sapatos para vestir-se e vestir os filhos.Sua linguagem é tão simples quanto avassaladora. A fome (que ela diz ser amarela), o frio e a escassez daquela vida avançam na vida de Carolina e daquela comunidade e fazem os dias, uns após outros, arrastar o leitor para o tempo e lugar de Carolina.
As promessas feitas pelos políticos que eram esquecidas depois das eleições, os corpos caídos pelos caminhos, o excesso de consumo de álcool, os ratos dividindo o pouco que tinham, a fome, o frio, a invisibilidade, a naturalização da violência contra a mulher:
“Eu enfrento qualquer especie de trabalho para mantê-los. E elas, tem que mendigar e ainda apanhar. Parece tambor. A noite enquanto elas pede socorro eu tranquilamente no meu barracão ouço valsas vienenses. Enquanto os esposos quebra as tabuas do barracão eu e meus filhos dormimos socegados. (sic)”
O livro é atemporal e sua leitura é essencial para quem busca conhecer “de dentro” as origens das expressões sociais, políticas, econômicas, raciais e culturais que existem na cidade de São Paulo. A fome é amarela e Carolina consegue transformar em palavras o que parece impossível. Leia. Só leia.