28/05/2020
Caro Ministro!
Tenho certeza que Vossa Excelência não imaginaria que a famosa frase “TEMPOS ESTRANHOS”, tantas vezes repetida pela comunidade jurídica, se tornaria tão desatualizada em pouquíssimo tempo.
À bem da verdade, daqui de baixo, na defesa intransigente dos direitos do povo, as coisas já andam estranhas há muito tempo.
A sociedade democrática de direito está em ruínas, perdida em meio de corrupção, jogos de interesses, veiculação de “fake news” e o total desrespeito aos delicados momentos vividos pelo nosso país.
O jogo de interesses, que parece tão estranho aí em cima, aqui é coisa comum. Assistimos diariamente o comércio de dr**as, o jogo do bicho, a comercialização de produtos frutos do contrabando e descaminho e, às vezes, chegamos à nos questionar se as mencionadas práticas são proibidas.
Verdade! De vez em quando, alguns são presos. Ocasião em que o Ministério Público atua de maneira ferrenha em manter os referidos indivíduos em um cárcere eterno, como o promotor de São Paulo, que recentemente, muniu-se de sua espada para exigir do Poder Judiciário, o esvaziamento da “Cracolândia”.
Aliás, devaneios à parte, os argumentos do “herói” eram imbatíveis: “o combate ao tráfico de dr**as e o inadmissível aglomeramento de pessoas”.
De vez em quando, um senhor aposentado é preso, depois de permanecer 15 anos fazendo pules de jogo do bicho no mesmo lugar. Naquele dia, uma mega operação policial descobriu a “empreitada criminosa”.
O contrabando? Também foi combatido. Fecharam o Stand Center na Avenida Paulista, ceifando o comércio de mercadorias ditas sem origem, mas isso aconteceu depois de mais de uma década de existência e os mesmos comerciantes apenas atravessaram a avenida para dar continuidade à comercialização de produtos.
Bem, ao meu ver, este é o mal necessário, pois dá às pessoas menos afortunadas, a possibilidade de compra, já que os impostos cobrados em nosso país são escorchantes.
Contudo, aqui da base da pirâmide, nós sabemos o que aconteceu nestes casos!
A mesma corrupção, jogos de interesses, lavagem de dinheiro que, nas grandiosas prisões exibidas pelo Datena, parecem nos fazer crer que há uma luta incessante contra a criminalidade.
No entanto, nesta lagoa de Justiça, somente os peixes pequenos são içados pelo anzol da aparência.
Com todo perdão, Sr. Ministro, a mencionada frase “tempos estranhos” já se fazia presente há muito tempo na ponta da corda. Mesmo assim, não esperávamos que fosse se tornar desatualizada.
O que estão fazendo os seus pares, Ministro?
Um inquérito sem titular, flagrantes investidas de um poder no outro (ainda existe a figura tríplice?), o surgimento de nulidades de algibeira (ainda que sejam absolutas), tribunal e juiz de exceção? Tudo concentrado na maior Corte de Justiça de uma sociedade, o Supremo Tribunal Federal.
Querido Ministro, nessa altura do campeonato, já imagino que a aposentadoria que se aproxima não pareça tão ruim.
Afinal, compor a Suprema Corte sendo único voto a garantir a segurança jurídica é uma missão um tanto penosa.
Mesmo assim, arrisco dizer, a frase está desatualizada pois, assistir essas notícias em nossa Suprema Corte tornam os tempos mais do que estranhos: são lamentáveis, inimagináveis, absurdos, ridículos e que tiram a vontade de acreditar na Justiça Brasileira.
Da minha parte, vou continuar lutando pelos direitos do povo, por vezes representados por aqueles que se tornam meus constituintes, pois ainda assim, com a luta ferrenha, sempre tenho experimentado a vitória.
Jeferson Luiz Ferreira de Mattos
Advogado Criminalista