25/12/2023
Uma singela história de Natal.
Dijalma Lacerda.
Vou lhes contar uma história. Uma história simples, mas é a que perspassa em minha mente agora, quando o Natal se aproxima. Essa história tem mais de sessenta anos, uns sessenta e três mais ou menos, mas eu não a esqueci. Poderia ser apenas mais um conto de Natal, mas não é só isso, porque é uma história de amor, amor filial, amor paternal, amor maternal, amor fraternal, amor familiar sobretudo. Afinal de contas, é uma história muito importante, quiçá a mais importante, porque é minha. Eu já estava beirando os onze anos, usando ainda calças curtas. Os pelos, ainda bem raros, mas começando a aparecer pelas pernas, braços... Eu não me lembro que tipo de traquinagem eu havia feito, mas me lembro que meu pai havia dito que eu não ganharia presente algum naquele Natal, e que deveria ainda ficar bem comportado, pois não ganharia também nos dos outros anos. Os dias íam se passando e eu realmente procurando me esforçar para que o castigo não se estendesse. Cada vez mais. Pense num moleque arteiro, cheio de truques, arteiro mesmo. Esse era eu. O pior é que havia muitas das artes que eram praticadas coletivamente, por mim e por meu irmão Dirceu. Meu irmão Denilton ainda era pequeno, tinha cerca de um ano. Quantas vezes meu irmão Dirceu apanhou no meu lugar ! Em contrapartida, ainda guardo até hoje, saliente, a marca da pedrada que ele me deu, com estilingue, bem na nuca, fazendo vesga pontaria nuns meninos contra os quais eu estava brigando. Quando a saudade aperta, levo minha mão atrás da cabeça e toco com os dedos exatamente naquele ponto onde a pedra bateu. Fecho os olhos e até ouço os alaridos felizes daqueles dias, nos quais, apesar de alguma pueril rusga vez ou outra, éramos todos muito felizes. Muito ! Eu havia sido aprovado na prova de admissão e já estava frequentando o Ginásio Estadual Washington Luiz em Porto Ferreira/SP.. Para mim era tudo muito novo: novos estudos, novos aprendizados, novos colegas, novas amizades, novos professores... Tudo era muito lindo ! Como eu adorava aquele uniforme de paletó e calça cáqui, com gravata preta! Só tinha uma dificuldade, o ginásio era longe de onde morávamos. Eu até acenara para o meu pai e minha mãe que gostaria de ganhar uma bicicleta no Natal, mas diante das circunstâncias ... A noite de Natal passou, eu nem vi o Papai Noel entrando pela janela, nem ouvi os sininhos de seu trenó, não ouvi o barulho de sua renas e nem de sua universal risada Rô, Rô, Rô. Afinal, eu dormira a noite inteira. Acordei, passei os olhos pelo meu quarto, olhei por debaixo da cama e nada. Transpus a porta do meu quarto, andei pela sala, pela cozinha, pela copa. Nada !!! Meus olhos marejaram e logo se encheram de lágrimas. Enfim eu merecera, a traquinagem tinha sido grande. Minha mãe, vendo a minha agonia, chegou bem devagarinho e cochichou nos meus ouvidos: dê uma olhada lá fora, no quintal. Abri a porta dos fundos. Lá estava ela, linda, uma das imagens mais lindas que eu já vira em minha vida, uma bicicleta de pneu balão, da marca Best Cicle com carimbo da Mesbla, com tons de verde, novinha, cheirando tinta !!!!! Meu peito quase explodiu de tanta felicidade. Eu nem me lembro o que os meus irmãos ganharam, mas a minha bicicleta estava ali. Quanta alegria, ela me acompanharia por muitos e muitos anos! Fiquei mais feliz ainda quando soube que meu pai a havia buscado em Pirassununga e viera pedalando pela estrada velha até Porto Ferreira. Isso era puro amor, amor de pai, amor de mãe, amor de irmãos, amor de família ! Feliz Natal a todos, Jesus plenitize os corações de cada um de vocês com muito amor, enchendo-os de bênçãos e felicidades. Amém !!!!!