11/01/2017
NOVAMENTE O PROBLEMA CARCERÁRIO
Nos Estados Unidos da America está a maior população carcerária do mundo. E lá, pena é castigo. Assim, a preocupação com a recuperação é secundária, mas, nem por isso se tem conhecimento, na atualidade, de situações que se assemelhem com a que estamos vivenciando aqui, onde a lei, pelo contrário, é aplicada, em parte como reprimenda e prevenção, mas com uma série de regras, que tem o objetivo de recuperar o indivíduo e reintegrá-lo na sociedade. Mas, na verdade, este último aspecto, não passa de falácia. A superlotação dos presídios, inviabiliza, por sí, qualquer programa de ressocialização do condenado. Assim, de forma paradoxal, se compararmos os dois sistemas, vamos concluir que no nosso, a pena é mais castigo do que lá, tendo em vista as condições, o tratamento indigno a que ficam nossos presos submetidos. É chavão, mas infelizmente é a realidade: os presídios são escolas do crime. E o pior é que vemos hoje um agravamento substancial do problema, na medida em que temos um Estado financeiramente falido, com o encargo de resolver, por questões humanitárias (como cobram os organismos internacionais) e de segurança pública, em curto espaço de tempo, a situação absurda a que chegou o nosso sistema prisional, que segundo estatísticas divulgadas pela imprensa, está com uma superpopulação 70% maior do que o número de vagas disponibilizadas, o que significa dizer que onde cabem 10, estão amontoando 17. Isso não assusta? Mas se pensarmos que onde cabem 2000 estão colocando 3.400, e onde poderíamos ter 200.000, estamos com 340.000, se passa a ter uma verdadeira noção da dimensão do problema. A solução, que seria (e é) o aumento de vagas, não se faz num passe de mágica. Haverá demanda de tempo (e muito tempo: escolha do estado, obtenção do terreno, licitação com todos seus entraves e recursos, e a própria construção). Há notícia de que tivemos presídios que demoraram mais de seis anos para serem construídos. E é óbvio de que haverá, ainda, necessidade de dinheiro, muito dinheiro (pois não se pode esquecer que não ficam ap***s em investimentos, mas também, após em despesas para colocá-los em funcionamento). E não basta estar previsto no orçamento. A verba tem que efetivamente existir e estar disponibilizada. Observe-se que o Ministro da Defesa, em entrevista concedida à Revista Veja, contrariando a fala do Ministro da Justiça, afirmou que não há dinheiro para as construções e que se a sociedade quiser uma solução para o problema TERÁ QUE PAGAR MAIS IMPOSTOS. Ė um acinte! Infelizmente, não é e nunca foi prioridade dos governantes esta questão. A oferta de vagas não acompanha o crescimento da demanda, enquanto que a criminalidade está numa progressão geométrica, fruto de uma série da fatores, que começam na paternidade e maternidade irresponsáveis, passam pelas famílias desestruturada e abandonadas, pela falta de trabalho, pela carência na área da educação, na ausência de moradias, e com assistência médica-hospitalar difícil de se adjetivar, pela sua insuficiência, quando existente. E tanto é que vemos no noticiário, famílias de desempregados, sendo alocadas, com seus filhos, embaixo de viadutos. O que se esperar disso? A falta de estrutura e a desigualdade sociai existente e que se agrava a cada dia por força da crise político-econômica, decorrente da corrupção descarada e deslavada que assolou nosso país, enchendo os bolsos de políticos, de partidos e de empresários desonestos, em detrimento do enfrentamento de questões básicas, que certamente atuariam nas causas primárias da criminalidade. Acrescente-se ainda, que além da falta de empregos, moradias, creches, escolas, assistência à saúde, há, ainda, a questão da dependência toxicológica, que, igualmente, precisa ser enfrentada, por um lado sob o prisma da saúde e de outro criminal e de política criminal. As dr**as são o mal maior das sociedades contemporâneas, indutoras do aumento de crimes, e desagregadoras da família. Não há solução a curto prazo para a criminalidade e, por consequência, para o seríssimo problema carcerário. Só em momentos de crise, de absurdos como os ocorridos agora em Manaus e Boa Vista, que parte, e só uma parte, da sociedade se sensibiliza, o mesmo ocorrendo no que tange aos governantes. Para muitos, aqueles que lá estão, nada mais representam do que a escória, e pouco se importam se estão, ou não, sendo tratados como seres humanos, com um mínimo de dignidade. E o descaso das autoridades e de parte da sociedade, acabou propiciando o crescimento das facções, que cuidam/protegem os seus iguais e suas famílias, em troca da fidelidade, obediência/submissão, e contribuição financeira. E o exemplo negativo dado pelos corruptos acabaram dando, também, maior força a esses movimentos agregadores de criminosos. Grosso modo, o vácuo deixado pelo Estado impulsionou as facções, que, hoje, brigam pela ocupação de espaço e do mando dentro e fora dos presídios, em especial no que tange a tráfico de dr**as, de armas, roubos de carga e de bancos. Agora, mais uma vez, corre-se atrás de remendos e já se fala que parcela de culpa cabe ao judiciário, tendo em vista o grande número de presos provisórios. Porém, esquecem-se de que independente da natureza da prisão, havia a necessidade da contenção daqueles réus, o que implica na óbvia conclusão de que o número de vagas é que se mostra manifestamente insuficiente. E como se fossem Colombo, colocando o ovo em pé, apresentam à sociedade idéias já surradas, sem nenhum prognóstico de implantação efetiva a médio e curto prazo. Enfim, a questão é, não se nega, extremamente complexa, e não se viu no plano apresentado, nenhuma novidade, como a de se ir às causas. A solução imediata seria, todos sabem, o remanejamento de presos, mas isso depende da abertura de vagas, e essas, por sua vez, da construções, que demandam tempo e recurso, como já dito. O que vão fazer? Certamente pressionar o Judiciário a promover mutirões para reduzir a população carcerária; apresentar projetos, ampliando o campo de incidência das p***s alternativas e, por baixo dos panos, tentar se compor com as lideranças das facções, para acalmar, por um período, a pressão que existe, e, assim permanecer até a deflagração de outra crise. A conclusão, portanto é a de que os trabalhadores (que conseguiram ainda manter seus empregos), recolhedores de impostos e suas famílias continuarão sem receber seus alvarás de soltura.