14/03/2024
Ahh...as fases que passamos na vida...
Gostaria de compartilhar, ainda que somente para meu eu no futuro, alguns sentimentos, sensações e idéias que me assolaram e ainda assolam.
Este ano eu completei cinco anos de formado e cinco anos de militância na advocacia.
Confesso que a experiência não ficou muito próxima daquilo que eu imaginava.
Tudo é briga, treta, discussão, explicações além daquelas que deveriam ser dadas.
Ninguém gosta de advogado, essa é a verdade.
Somos chatos, briguentos, discutimos quando os pontos de vista ou argumentos são divergentes daqueles dos nossos interlocutores, adversários, amigos, cônjuges, juízes, delegados, clientes e afins.
Nem sempre estamos certos, isso é fato, mas quando estamos, vamos até o final para defender aquela ideia ou ponto de vista que deve ser defendido.
A lida diária é estressante, cansativa, desgastante e, muitas vezes, improdutiva, ao menos para mim, que escolhi seguir o caminho da advocacia raiz, sem mercantilismo e com o atendimento personalizado, pessoal e exclusivo.
Precisamos convencer o cliente do nosso ponto de vista e do porque acreditamos nele, depois, precisamos convencer o mesmo cliente que o valor dos honorários é justo, pois implica nos anos de estudo, nas prerrogativas exclusivas que iremos entregar, no tempo empregado durante todo o processo ou procedimento; depois dessa negociação, passamos para as ações propriamente ditas.
Organizar os documentos, estudar a matéria, a jurisprudência favorável e desfavorável, o entendimento doutrinário majoritário e minoritário, elaborar as peças necessárias, conferir, mais uma vez, a documentação, competência, teses e, partir daí, enfrentar os sistemas disponibilizados por cada tribunal.
Feito o protocolo, passamos para o acompanhamento do andamento processual que, na maioria esmagadora das vezes é lento, incompetente (sempre tem algo de errado) e ineficaz. Também precisamos explicar aos clientes que não existem muitas ferramentas para acelerar o processo e as que existem são tão ineficazes quanto o andamento processual.
Quando o andamento está ok, existem os problemas inerentes ao entendimento de cada magistrado. No Brasil nós temos um código para cada magistrado, que faz o que bem entende e aí entramos na luta para fazer cumprir o que está na lei, por meio dos recursos.
Agora sim...a vagarosidade se mostra sem medo!
No mínimo um ano para se julgar um agravo de instrumento no TJSP, se for no TJPB ou no TJBA, dois anos. Um pouco mais para apelações em geral.
Isso só para fazer valer o que o código previu, da forma como ele previu e dentro da legalidade.
Pois bem, só nessa brincadeira já se foram dois anos.
Eu tenho processos com cinco anos de tramitação, onde se discute, ainda, a aplicação correta do código, segundo o entendimento do medesimo tribunal ao qual o excelentíssimo magistrado está lotado, mas, em razão do livre convencimento do magistrado, confundido com o livre entendimento do meritíssimo sobre o código, tenta-se aplicar aquilo que dá na telha.
Passados os perrengues, quando conseguimos uma sentença favorável, mantida pelo acórdão, vamos lá receber...outro parto...
Mais briga para receber do devedor e quando recebemos, mais briga com o cliente, principalmente se for no êxito...aí o chicote estrala.
São frases comuns de se ouvir: "mas doutor, só vou receber isso?", "mas você está ganhando muito, 30% é muita coisa", ""nossa, essa demora toda para receber essa merreca".
Ou seja, a mesma pessoa que sentou chorando na cadeira do escritório, ou porque estava com o nome sujo indevidamente ou porque foi lesado e perdeu algum dinheiro ou, ainda, que tem um ente querido sendo vítima de injustiça na aplicação da lei penal, que recebeu todas as explicações possíveis e imagináveis sobre os riscos, os ganhos e a demora, quando volta para encerrar o contrato e receber aquilo que é seu direito, passa a afrontar a dignidade do advogado, aquele que labutou, esquentou a barriga no balcão do fórum, enfrentou juiz mal humorado, sustentou oralmente perante desembargadores que não ouviram uma única palavra do que foi dito, que buscou meios de receber o valor da condenação e que, ao final, contente e aliviado, espera receber o cliente também contente e aliviado, mas que acaba tendo mais uma briga para, dessa vez, fazer valer aquilo que foi contratado no início de tudo.
Sem contar os esforços herculeos em delegacias, INSS, prefeituras e afins, se esquivando de pedidos de propina para ser feito o que deve ser feito conforme a lei, funcionários mal humorados e insatisfeitos, demora e incompetência.
Contudo, depois desses cinco anos, de muita luta, medo, suor, lágrimas e uma pandemia que quebrou as pernas do subscritor, ainda me orgulho diariamente.
Ainda tenho um imenso prazer em percorrer o caminho que eu escolhi e que me escolheu.
Ainda sinto enorme prazer ao reverter uma decisão injusta, inepta, errônea e ilegal.
Ainda tenho imenso prazer em receber e atender aqueles clientes, maioria, graças ao bom Deus, que ainda sentem a confiança necessária para a relação cliente advogado, que tratam com respeito e dignidade o profissional que outrora era tão bem visto e louvado e hoje, infelizmente, é visto de forma não tão digna, mas quase sempre com desconfiança, medo e desprezo.
Que venham mais cinco anos, dez, vinte, cinquenta...