08/02/2019
Nessas de dar entrevista, uma questão bastante importante que surgiu foi a da revitimização. Parece que no afã de querer contar a história e saber os detalhes, os veículos de imprensa perdem um pouco de vista que contar repetidamente o que aconteceu aprofunda o sofrimento e o trauma de quem já passou por uma violência muito grande.
Podemos falar sobre as informações acerca de como os fatos se deram, sobre o despreparo das instituições de saúde para lidar com a questão da violência sexual praticada especificamente por profissionais de saúde contra pacientes, sobre como esse caso não é pontual, mas um em um universo de muitos casos.
Podemos falar de tanta coisa em uma matéria de três, quatro minutos, de forma produtiva e dando conta do que aconteceu e do significado do que aconteceu. É violento querer botar uma pessoa pra contar isso repetidas vezes, ainda mais pra uma câmera.
Não precisa aprofundar o sofrimento da vítima pra explorar o fato, render uma audiência em cima de mais uma tragédia e depois isso não ter mais nenhuma consequência. Noticiar eventuais anos de cadeia que venham e morrer nisso. Até porque, independente da adequação da punição à lei, ela em si não torna a vida das mulheres mais segura. Esse daí pode estar fora de circulação por um tempo, mas há outros, muitos outros. E principalmente, muitas outras vítimas desses muitos outros.
Segundo levantamento do Universa (*) em parceria com a Volt Data Lab, feito através de requerimento à Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo por meio da Lei de Acesso à informação, só no estado, de 2008 a 2018 foram 1453 casos de estupros praticados em ambientes de cuidado à saúde. Consultórios, clínicas, hospitais, médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem...
Há poucos meses atrás, a comoção da vez era com a notícia de uma mulher no estado do Arizona, nos EUA, em coma há anos, e que foi estuprada por um enfermeiro e engravidou. E esse é, infelizmente, só mais um, o que está fresco na memória, mas uma pesquisa rápida identifica vários, e com modi operandi parecidos.
Mulheres que estavam sedadas ou que por algum motivo se encontravam com a capacidade de resistência reduzida e que foram abusadas sexualmente por homens que tiveram acesso a elas *precisamente por elas estarem sob os cuidados de uma instituição de saúde*.
Se até tema de filme do Tarantino esse tipo de situação virou (Kill Bill), é porque a sociedade sabe muito bem que as mulheres não estão suficientemente seguras nesses ambientes.
Vamos falar sim sobre o que aconteceu nesse hospital com essa vítima, mas vamos falar também sobre porque isso acontece, para que pare de acontecer.
https://universa.uol.com.br/noticias/redacao/2018/07/24/sao-paulo-teve-mais-de-1400-casos-de-estupro-em-locais-de-saude.htm
Maira Pinheiro
Freitas e Pinheiro Advogadas
Postos, grandes hospitais, salas de raio-x, recepções, consultórios odontológicos e até UTIs são lugares que a gente vê como seguros, onde se prioriza a saúde dos indivíduos.&