09/10/2025
A voz do advogado —como representada pelo pensamento do Dr. William Frezze — possui quatro camadas fundamentais: visibilidade, politicidade, eticidade e insubmissão. Cada uma dessas dimensões é uma tessitura que sustenta a função da advocacia como contrapoder legítimo, verbo social e guardião da dignidade humana.
1. Voz como Visibilidade
A advocacia é, por excelência, voz substitutiva: é a arte de emprestar verbo a quem teve a palavra suprimida, é a técnica de fazer ver o invisível normativo. O advogado fala não apenas para convencer o juiz, mas para tornar visíveis os sujeitos esquecidos pela legalidade cega, pelas estruturas jurídicas indiferentes à desigualdade material.
Como diria Pontes de Miranda, “o silêncio do oprimido é o grito que o Direito não ouviu”. A voz do advogado, portanto, é canal de escuta social, projeção de presença nos interstícios do ordenamento jurídico.
2. Voz Política (com "P" maiúsculo)
A advocacia é uma prática inevitavelmente política, no sentido clássico da polis: ela opera sobre as estruturas da sociedade, dialoga com o poder, tensiona decisões, confronta arbitrariedades. Não se trata de partidarismo vulgar, mas de inserção estratégica na engrenagem da cidadania.
Negar o caráter político da advocacia é fingir neutralidade num campo de batalha. O advogado, ao postular, denuncia injustiças estruturais; ao recorrer, desafia hegemonias decisórias; ao peticionar, participa da disputa pelos rumos da coletividade.
A fala do advogado é, portanto, ato político de resistência e afirmação da democracia substancial. Todo Habeas Corpus é um ato político. Toda sustentação oral é uma intervenção na arena pública.
3. Voz Ética
O falar do advogado não é grito desgovernado. É verbo estruturado pela ética da responsabilidade (Max Weber) e pela deontologia forense, conforme disciplinada no art. 2º do Código de Ética e Disciplina da OAB, que consagra o compromisso com a justiça, a probidade, a verdade e a dignidade da pessoa humana.
A axiologia jurídica impõe limites ao exercício da palavra: não se mente, não se manipula, não se fere a honra. Mas se combate, com veemência.
(Continua no comentário fixado)