29/03/2020
É PRECISO SABER DANÇAR
A meu ver o aspecto mais perverso da crise da COVID19, no Brasil, tem sido a proposital mistura da política (não das políticas públicas) e sim da política partidária e de interesses eleitorais com as ações necessárias para o enfrentamento da pandemia.
O momento é de diálogo entre os políticos para que se possa realizar a melhor gestão possível dessa crise. Aliás, os protagonistas dessa gestão devem ser as autoridades sanitárias e econômicas e não os políticos, que normalmente tendem a envolver, em tudo, as questões partidárias e eleitorais.
Ao contrário do que tenho lido e ouvido, penso que no contexto da COVID19 e suas consequências, não existe um período de crise e um período pós-crise, pois o que tem sido denominado de pós-crise ainda será a mesma crise. Vivenciamos uma só crise que se prolongará no tempo. Num primeiro momento (não se sabe ainda por quanto tempo) estaremos envolvidos com as ações para evitar o contágio em massa, a disponibilização de profissionais da saúde e a infraestrutura para tratar os doentes. Mas não é só, concomitantemente estaremos envolvidos com ações e medidas para amenizar as consequências econômicas na indústria, no comércio, no emprego formal e na informalidade, em especial para os mais vulneráveis afetados pelo vírus ou pelo isolamento. Isso tudo exigirá um trabalho coordenado e coeso entre as esferas federal, estadual e municipal, contando também com a sociedade civil organizada e a sociedade em geral.
Se os prognósticos dos especialistas em saúde pública e sanitária e em economia estiverem corretos, estamos ingressando na mais grave crise mundial da atual geração, pois a grande maioria dos países está enfrentando, cada um a seu modo, a mesma crise.
É possível que ao emergir dessa primeira fase da crise, possamos declamar como Camões, no poema “Os Lusíadas”, que narra a viagem em que Vasco da Gama descobre o caminho marítimo para as índias (“cesse tudo que a antiga Musa canta, que outro valor mais alto se alevanta”). É exagero? Talvez. Mas é possível que a atual ordem mundial, inclusive econômica, de alguma forma sofra alteração.
O Brasil é um país que tem grandes potenciais e pode aproveitar o momento para deixar de ser “o país do futuro”. Parafraseando o poeta Fernando Sabino, “é preciso fazer da queda um passo de dança”.
Ora, se essa crise representa uma queda, temos que perceber, com antecedência e ainda durante a queda, que para além das dificuldades e consequências negativas que qualquer crise carrega, é inegável que ela deixa no seu rastro diversas oportunidades que, bem aproveitadas, pode fazer com que o Brasil saia da crise como um país melhor e mais bem posicionado no contexto internacional.
Portanto, paralelamente a tudo o que está sendo realizado para o enfrentamento da crise, é urgente a formação de um grupo de pessoas com notório saber nas mais diversas áreas (não é o caso de descrições metodológicas neste pequeno artigo) para que, partindo das grandes potencialidades existentes no Brasil, pense estrategicamente, com base em análises, previsões e modelos matemáticos, como tirar o melhor proveito das condições que se farão presentes na segunda fase da crise em curso. É preciso saber dançar!!!
Prof. Joel Alves de Sousa Júnior
Advogado e prof. Universitário
Ex Reitor da Universidade São Francisco.
Ex vice-presidente do Conselho de Reitores das Universidades Brasileiras, para o segmento comunitário.