03/01/2026
Tudo pelo petróleo. Isso aqui não é quitanda:
“Vamos administrar Venezuela até a transição”. A fala do presidente Trump exterioriza a prepotência de um lunático brincando de War colocando a sua pecinha em território venezuelano. Não há que se confundir a inadmissível ditadura instalada na Venezuela com a invasão, ocupação, saque e sequestro perpetrados pelo líder norte americano. Trump, por óbvio, não está pensando na democracia, na pretensa “não liberdade” dos venezuelanos ou por fim ao narcotráfico. Não. O desiderato, que fere diretamente a soberania de um país e viola o direito internacional e diretrizes da ONU, é claro: o petróleo. “Eles roubaram o nosso petróleo” (Trump). O saque desse poderoso recurso mineral, engendrado às escuras da madrugada do dia 3 de janeiro de 2025 (data simbólica americana para se apossar de terreno alheio, como foi a intervenção no Panamá), é indisfarçável. Nefasto. Criminoso.
Trump não é bonzinho.
Trump se arvora em xerife global, em especial, hoje, da América do Sul. Talvez o desejo, que nem psiquiatras explicam, de implantar a Doutrina Monroe II. Terá reação. Não há dúvidas de que os países verdadeiramente democráticos e organizações internacionais irão se insurgir. Não com a força (esperamos). O representante do país sequestrador (EUA) não tem autoridade, legitimidade ou não se vale de quaisquer tratados, legislação ou norma que permitam sequestrar, prender e julgar o presidente de outra nação. E sem autorização do seu próprio Congresso, sob a alegação de que a invasão seria vazada. A ditadura venezuelana não se confunde com medida tão autoritária e inédita.
Nessa toada, o atuar inusitado de Trump compromete - e tacitamente revoga - o multilateralismo, impelindo a comunidade internacional a inserir medidas de defesa nas legislações e reforçando a preservação dos princípios da não intervenção e pro homine, como o norte de qualquer decisão. É preciso diálogo. E não arbitrariamente agir na surdina, surpreendendo ao mundo, às nações e ao próprio Congresso americano. Sendo Maduro ilegítimo para ocupar o cargo em seu país, não autorizaria jamais qualquer tipo de intervenção à soberania venezuelana, aos tratados, desrespeitando organismos internacionais, germinados após milhões de vidas perdidas nos sombrios períodos de guerra.
Caberia e cabe – assim como se sucedeu em outros países – o próprio povo venezuelano, politicamente, através de seu sistema de Justiça, extirpar a ditadura, restabelecendo a democracia. Não um invasor, brincando de Batalha Naval. Mister colocar limites nesse líder do país sequestrador (“Não se trata de avalizar o regime de Nicolás Maduro. Só não é possível que a guerra seja o pretexto para se ter paz”, Paulo Vinicius Coelho). E que esse sério precedente não venha a ensejar nova polarização política em nível nacional. São situações distintas e que o ocorrido não sirva como desculpa para reavivar o deletério acirramento entre pretensas "direita" e "esquerda" no Brasil.
Paradoxalmente – e neste ponto resta claro que o interesse é apenas o petróleo –, Trump tem seus ditadores aliados de estimação no Oriente Médio (Emirados Árabes, Arábia Saudita, Qatar). Provável até mesmo que internamente sofrerá reação de sua própria sociedade (“Invasão de Trump é ilegal e imprudente”, New York Times), políticos e de sua Corte Suprema. Falar em democracia, utilizando a força e o poderio bélico para tomar posse, à mão armada, de um país e de seu povo, isto, sim, revela-se ato ditatorial. Venezuela não é quitanda. Não está à venda. E petróleo não é pepino.
Obs: o sequestro da esposa é ainda mais grave. Viola todos os princípios. É um ser humano independentemente do seu marido. Reprimendas contra o seu marido não podem contaminá-la pelo simples fato de ser esposa. Que arbitrariedade contra a mulher!