23/03/2017
Muitos falam hoje da globalização como se ela fosse a panacéia definitiva para os problemas do mundo.
Mas a globalização talvez tenha feito um mal enorme para a arquitetura, em certos casos.
Não temos mais a valorização da arquitetura local, regional, própria da cultura que se desenvolveu por muito anos em uma determinada área, seja ela de que tamanho fôr.
Históricamente, tinhamos as condicionantes do clima e da geografia como principais determinantes dos parâmetros de uma construção, fosse ela para moradia, fosse para abrigo de animais, fosse para local de trabalho ou mesmo para estocagem.
Frio ou calor, excesso de umidade ou a falta dela, muita ou pouca radiação solar (luminosidade), altitude, regimes de chuvas, ventos ou marés, tipo de solo, tipo de material disponível, tipo de mão de obra e tecnologia disponíveis, declividades, fontes de água, terras férteis, pastos, dificuldades de acesso, segurança contra saqueadores ou contra invasões, ou seja, o ambiente e suas circunstâncias ditavam as definições básicas da arquitetura.
Em seguida vinham as ideações, as motivações, a capacidade, a cultura, as quantidades, o nível de conhecimento ou da educação e o domínio de tecnologias próprias, que estabeleciam as características estéticas, as proporções e as dimensões, os adornos, a higiene, o nível de privacidade, as cores, a finalidade, enfim, os componentes que, em seu conjunto, resultavam em arquitetura com características exclusivas, próprias de cada povo, de cada localidade.
Com a globalização passamos a ter acesso mais rápido a informações de todo o tipo sobre o que acontece ao redor do mundo, e cada vez mais rápido.
Isso fez com que alguns povos se dessem conta de como outros povos conseguiam viver melhor, dispunham de conforto, de segurança, de facilidades ou de vantagens que lhes eram, até então, desconhecidos.
A arquitetura de países considerados mais desenvolvidos passou a ser então considerada referência do que há de melhor, tanto funcional como estética e tecnológicamente falando.
Daí para que passasse a ser tomada e usada como valores universais foi um pulo.
Além disso tudo, vivemos, no ocidente, por décadas, sob a influência da escola alemã de Gropius, Bauhaus, que tratava a arquitetura como mais um dos elementos típicos da produção industrial, fria, racional e, é claro, impessoal.
A idéia era a de baratear o custo da construção através do ganho de escala, da simplificação do desenho, do uso predominante da razão, da modulação, da repetição.
Apesar de bem intencionada, esta idéia contribuiu para a formação da cultura ocidental da arquitetura altamente funcionalista. Não havia espaço para a questões subjetivas e, muito menos, para a vontade individual ou para a adequação que cada região ou cultura pediam. Quando a escola Bauhaus passou a ser atacada pelos nazistas, ela assumiu o papel de contracultura, de rebelde contra o sistema dominante fascista, mesmo que suas idéias, em muito, se parecessem com as do próprio pensamento nazista - que se baseavam na imposição de uma cultura única, universal e dominante.
Ou seja, já não valorizavamos nossa própria Arquitetura.
Com a globalização das tecnologias veio a impressão de que tudo era possível, de que tínhamos domínio total sobre os elementos da natureza.
Então ninguem mais se preocupou com as condicionantes do clima e da geografia mencionadas acima e aqueles que o fizeram foram tratados como atrasados, arcaicos e pouco informados, já que nós detinhamos o poder sobre as intempéries.
A arquitetura se tornou impessoal, globalizada. E isto passou a ser considerado o modo inteligente de se projetar: sofisticado, universalista. Ela passou a ser a mesma em Hong Kong, Londres, São Paulo ou Nova York, salvo, apenas, pela disponibilidade de investimentos ou por restrições legais respectivas.
Nós temos uma arquitetura tipicamente brasileira, sendo feita hoje?
A arquitetura globalizada tirou do indivíduo e sua comunidade o direito de moldar seu espaço de acordo com sua personalidade, suas necessidades e demandas, que são próprias e exclusivas, tanto como são suas impressões digitais.
Também ignorou a cultura, os gostos, as referências, os valores, as tradições e os hábitos de cada povo, de cada região.
E, principalmente, ignorou as condicionantes do clima e da geografia locais. A consequência foram projetos completamente desconectados da nossa realidade.
Daí vemos os palácios de cristal sendo considerados símbolos de modernidade e sofisticação, quando são adequados apenas para regiões com pouca luminosidade ou que precisam aproveitar, ao máximo, o calor produzido pela radiação solar.
Temos beirais curtos onde a radiação solar e a quantidade de chuvas pedem proteção e sombra para as fachadas, para os acessos e para as esquadrias.
Vemos o descuido com o excesso de pavimentação e impermeabilização do solo.
Vemos o uso de materiais que absorvem calor em revestimentos de pisos e paredes, sabendo que temos verão excessivamente quente em quase todo o pais - mas estes são os materiais usados nos paises mais desenvolvidos.
Vemos o uso de cores escuras em telhados e pisos, que também contribuem para o aumento de calor.
Víamos a desconsideração com o verde por que copiamos o desenho que veio de países em que o verde era tão caro e dava tanto trabalho para se manter que era melhor não considerá-lo.
A arquitetura passou a ser vista como a representação própria do dominio do Homem sobre a natureza, então esta precisava abrir caminho para sua implantação e não atrapalhar a visão.
A questão ambiental mudou um pouco isso, hoje, mas a herança desta concepção está aí: diversos espaços urbanos com extensas áreas áridas e cobertas de concreto e asfalto.
Copiamos modelos de desenho urbano que funcionam em países cujas cidades evoluíram ao longo de milhares de anos de convivência e vizinhança próximas, que dispõem de transporte coletivo já funcionando por muitas e muitas gerações, que possuem boa parte da sua economia ou sistemas administrativo e financeiro descentralizados, que dispõem de vastas áreas planas, que não têm problemas com insetos, que precisam se defender dos ventos frios e constantes ou que buscam reter ou não precisam se proteger contra a umidade.
Como vamos reverter isso?
Quem sabe a tecnologida da construção devesse ser o caminho: sua evolução deveria tornar os processos rápidos, baratos, simples de adotar. Deveria ser adaptável, personalisavel. Deveríamos poder usá-la de acordo com as necessidades de cada projeto e não o inverso.
Mas a tecnologia da construção é a que evolui ou adota novidades mais lentamente entre as que temos hoje. Ainda usamos tijolo cerâmico como sendo o mais barato e prático material de construção. O mesmo material de centenas de anos atrás, que depende de trabalho artesanal e lento, com desperdício da ordem de 30%.
O ensino nas faculdades de arquitetura então deveria estimular o resgate e o desenvolvimento da nossa Arquitetura: conceitos, parâmetros, fundamentos e, por extensão, materiais e tecnologias de construção próprios para o nosso clima, nossa geografia, mas com custos, velocidade de aplicação e personalização otimizados.
A partir dai, dar apoio a formação técnica dos profissionais que farão uso dos nossos materiais e da nossa tecnologia, por todo o país.
Divulgar para o mercado, para o usuário final. Estimular sua difusão com programas dedicados.
Então, profissionais, empresas e fornecedores bem preparados teriam condições de mostrar a seus clientes as vantagens em se adotar as soluções próprias de nosso país, em cada uma de suas regiões.
Teríamos o profissional local valorizado, já que ele estaria melhor sintonizado com as demandas, a cultura e as condicionantes de sua região.
Todos sairiam ganhando.
A partir da percepção dos usuários finais de que o conforto, os custos de construção e de manutenção, a segurança e a durabilidade seriam em muito otimizados com a aplicação dos elementos da nossa Arquitetura, em pouco tempo observariamos a mudança da cultura de mercado.
A educação, mais uma vez, exerceria seu papel fundamental na viabilidade da formação de um ambiente civilizado.
Quem sabe ainda teremos a chance de ve-la sendo aplicada de modo correto para ver resurgir a nossa Arquitetura e o nosso Urbanismo.