16/04/2026
A parlamentar em questão é Elly Schlein, líder do Partido Democrático (PD), principal legenda da oposição de centro-esquerda italiana (TSF Rádio Notícias). Na terça-feira (14/04), da tribuna da Câmara dos Deputados, ela manifestou solidariedade a Giorgia Meloni após Donald Trump ter atacado a premiê em entrevista ao Corriere della Sera.
"Condenamos veementemente o ataque do Presidente Donald Trump à primeira-ministra Meloni por expressar, com toda a razão, solidariedade com o Papa Leão XIV. Somos adversários nesta Câmara, mas somos todos cidadãos italianos e não aceitaremos ataques ou ameaças ao Governo e ao nosso país"
Institucionalmente, Schlein mobiliza a distinção entre governo e Estado que estrutura o parlamentarismo desde sua formulação clássica. Criticar o governo é função constitutiva da oposição; permitir que um chefe de Estado estrangeiro ataque a premiê em suas funções é consentir com a erosão da própria forma parlamentar. Quando ela diz "somos adversários nesta Câmara, mas somos todos cidadãos italianos", está reencenando a fórmula que os democratas cristãos e a esquerda republicana italiana construíram no pós-guerra para estabilizar a República contra ingerências externas. A forma parlamentar supõe que o dissenso interno não pode ser instrumentalizado por potências externas sem destruir a própria possibilidade do dissenso futuro.
Em relação à soberania, a questão é ainda mais grave, penso eu. Quando Trump diz que espera que os Estados Unidos "façam o trabalho" pela Itália, ele expressa uma concepção do vínculo aliado em que a soberania italiana é condicional, existe enquanto obedece, e desaparece quando discorda. Meloni, ao recusar permitir que a base de Sigonella, na Sicília, fosse usada em operações no Irã invocando direito internacional, reativou a soberania como categoria substantiva e não meramente formal. Schlein, ao defendê-la, reconhece que essa reativação é um ganho coletivo do povo italiano, independente de quem governa. Schlein compreende que a soberania popular, como condição de possibilidade da democracia, precede a disputa pelo seu exercício. Perdê-la signif**a perder o próprio terreno onde PD e Fratelli d'Italia podem continuar se enfrentando como adversários legítimos.
Por outro lado, a forma do ataque de Trump ao dizer "pensava que ela tivesse coragem" a uma mulher chefe de governo, no contexto em que a virilidade está sendo performada como atributo do vínculo correto, não é uma crítica política: é a mobilização de uma gramática misógina específ**a que reduz a discordância feminina a falha de caráter, especif**amente, a falha daquele caráter codif**ado como masculino. A mesma frase dita a Macron ou Starmer teria outra leitura. Dita a Meloni, ela evoca todo um arquivo cultural em que a mulher que discorda é sempre, em última instância, uma mulher que "deveria" ter obedecido e falhou em fazê-lo. O "muito diferente do que eu imaginava" signif**a que Trump imaginava uma mulher domesticável, e a realidade o decepcionou.
Essa lógica é manifestação ideológica do patriarcado, e não alinhamento partidário. O feminismo identitarista opera por correspondência entre corpo e posição política: mulher de esquerda defende mulher de esquerda, mulher de direita f**a com a direita. O feminismo radical compreende que o patriarcado é uma estrutura de dominação que atravessa e excede as clivagens partidárias, organizando o que pode ser dito, por quem, e com que custo. Quando Trump diz que Meloni "não tem coragem", ele não está apenas atacando uma adversária política pontual: está reativando um dispositivo disciplinar que afeta todas as mulheres em posições de autoridade pública, incluindo qualquer mulher que possa um dia ocupar aquele cargo. Defender Meloni contra essa forma específ**a de ataque é defender a possibilidade futura de que mulheres governem sem serem disciplinadas pelo teste da virilidade imposto por homens poderosos.