31/03/2026
Em 2023 eu fui perseguida, ofendida e ameaçada, por 15 dias. Recebia ligações, ofensas, áudios que me chamavam de lixo, burra, podre, que traziam temas sensíveis como um ab**to recente e que diziam que homem nenhum deveria me encostar. Esses horrores foram ditos pelo ex de uma cliente, igualmente bombardeada naquele momento e com um histórico de violências que vocês não acreditariam.
Eu, que sabia de toda a teoria, escorreguei na prática: ser vítima é bem diferente do que defender juridicamente quem é. Ali eu experimentei o medo de que as ameaças e perseguições se tornassem reais. E ali eu também entendi que de vez em quando o sistema de justiça, que deveria proteger, não acolhe e muito menos protege.
E foi ali que também olhei para os lados e não me vi só. É difícil admitir medo quando a gente trabalha com algo que exige coragem constante e renovada. E é ainda mais difícil pra mim. Mas a partir de então, acolhi o medo e fui com ele de companheiro.
Hoje foi a audiência de instrução. Estavam lá as mulheres que estavam naquele momento e que seguem. E hoje também estava a Marcella, que entrou como minha advogada, pois eu não tinha estômago para seguir me representando.
E novamente experimentei na pele o que peço diariamente para as minhas clientes: o processo penal ainda é devastador para quem passa por um crime. E precisa falar. E falar de novo. E relembrar. E revirar o que aconteceu. E justificar. E de vez em quando desenhar. E sentir que nunca é suficiente.
O que eu entendia na teoria hoje se aplicou na prática. E eu falei em voz alta que eu, que ne considero muito corajosa, senti muito medo. E ao mesmo tempo que foi difícil, foi libertador. E ao mesmo tempo que liberta, aprisiona.
E isso tem nome: chama revitimização.
Saí com um alívio agridoce de quem acredita na justiça, mas sente o processo, o tempo, a demora... o corpo sente como uma surra aquilo que é "devido processo legal" e mesmo sabendo de toda teoria e vivendo isso diariamente, sentir a pele cortar lembra que pode até ter remendo, mas a cicatriz segue ali.
Eu sigo e seguirei acreditando na justiça. Mesmo que vez ou outra ela própria, sem fazer muito esforço, nos doa na pele.