11/09/2026
Tenho atendido mulheres e lido muitas pesquisas sobre bets nos últimos tempos. E, quanto mais leio e me deparo com essa realidade, mais penso que a gente ainda está olhando para esse problema de um jeito muito superficial.
Porque não é só sobre jogo, vício ou pessoas que “não souberam a hora de parar”. Há uma questão de gênero muito importante acontecendo aí, e dois aspectos têm me chamado especialmente a atenção: o sustento das famílias e a violência contra as mulheres.
Uma pesquisa recente sobre mulheres e bets mostrou algo que me fez pensar bastante: muitas mulheres não estão apostando por diversão. Elas apostam porque precisam de dinheiro. Entre as motivações aparecem a busca por renda extra, dinheiro rápido, recursos para despesas básicas e até para pagar dívidas. E 72% das mulheres que apostam são mães.
Para quem trabalha todos os dias com mulheres, é impossível ler esses dados sem pensar em quem, historicamente, f**a responsável por fazer o dinheiro da família chegar até o fim do mês. É a mulher que precisa dar um jeito na comida, na conta de luz, no remédio, no material escolar, nas necessidades dos filhos. Muitas vezes com renda menor, sobrecarregada pelo trabalho de cuidado e sem uma rede que dê conta do que falta.
A aposta passa a ser vendida não apenas como diversão, mas como possibilidade de resolver um problema econômico real. E há algo especialmente perverso nisso: a precariedade da vida de muitas mulheres se transforma em oportunidade de lucro.
Mas existe um segundo eixo que me preocupa ainda mais, porque ele aparece diretamente no meu trabalho: a violência doméstica.
Há mulheres que nunca fizeram uma aposta na vida e, ainda assim, estão pagando a conta das bets. Em pesquisa divulgada recentemente há relatos de situações em que homens se apropriam do dinheiro das companheiras para apostar. Quando a aposta dá errado, não desaparece apenas o dinheiro dele: desaparece o dinheiro da mulher, dos filhos, da alimentação, das contas e da própria subsistência da família.
( segue nos comentários)