23/08/2026
Há muito de verdadeiro nestes trechos de artigo de Nando Gross publicado no diário virtual Matinal de 6@ feira.
A banalização do jornalismo esportivo
Por Nando Gross
Definitivamente, alguma coisa se perdeu no jornalismo esportivo. E não estou falando de conhecimento sobre futebol. Estou falando de jornalismo mesmo.
Há momentos em que já não faz muita diferença se estou ouvindo uma rádio, assistindo a um programa de televisão, acompanhando um canal no YouTube ou sentado num boteco às quatro da madrugada. O nível da conversa é parecido. Alguém discorda, o outro grita. Faltou argumento? Chama de mentiroso. Apertou um pouco mais? Desonesto. E segue o baile, porque a ofensa virou linguagem, a agressividade virou personalidade e gritar diante de um microfone passou a ser confundido com coragem.
Gostar de futebol ou torcer por um time não torna ninguém um jornalista. Gostar de microfone também não. Saber escalação, decorar números, acompanhar mercado da bola ou passar o dia assistindo jogos pode formar um sujeito muito bem informado sobre futebol. Mas jornalismo ainda é outra coisa. Exige técnica, responsabilidade, linguagem, capacidade de ouvir, argumentar, apurar e, principalmente, entender o tamanho do estrago que se pode fazer quando se acusa alguém publicamente.
O Brasil começou a embaralhar ainda mais essa história em 2009, quando o Supremo Tribunal Federal derrubou a obrigatoriedade do diploma para o exercício da profissão. Sempre considerei uma decisão ruim. Não porque um pedaço de papel transforme alguém em bom jornalista. Evidentemente não transforma. Conheci profissionais extraordinários e outros péssimos, todos formados em faculdade. Aliás, hoje mesmo há jornalistas diplomados patrocinando debates histéricos em emissoras de rádio de Porto Alegre e chamando isso de “jornalismo identificado”. Não é. Isso é simplesmente colocar um torcedor diante do microfone de um veículo jornalístico. Jornalismo identificado é outra coisa: passa pela escolha e produção de conteúdo, pela definição de um público e por uma linha editorial assumida. Não significa abandonar critérios jornalísticos, muito menos trocar argumento por gritaria.
Mas uma profissão que lida diariamente com reputações, acusações, informação pública, direitos individuais e interesse coletivo não deveria abrir mão tão facilmente de critérios de formação profissional.
E existe aí uma discussão que o jornalismo brasileiro resolveu empurrar para baixo do tapete. Se não é a formação que define o jornalista, o que define?
Se o diploma deixou de ser obrigatório, o Estado não pode simplesmente abandonar qualquer critério para o exercício profissional do jornalismo. É preciso criar um mecanismo legal que estabeleça requisitos mínimos de capacitação, deveres, responsabilidades e regras claras para quem pretende exercer profissionalmente a atividade. Não se trata necessariamente de devolver às universidades o monopólio de entrada na profissão. Trata-se de reconhecer que jornalismo não é apenas pegar um microfone, abrir um canal ou escrever num site. É uma atividade com enorme impacto sobre reputações, instituições e sobre o direito da sociedade à informação. Liberdade de expressão é direito de todos. Exercício profissional do jornalismo é outra coisa. E precisa ter regras.
Qualquer pessoa pode abrir um canal, criar um blog, publicar textos, entrevistar alguém, comentar futebol e alcançar milhares ou milhões de pessoas. Acho ótimo. A democratização dos meios de comunicação é uma conquista. O problema começa quando se confunde o direito universal de expressão com o exercício profissional do jornalismo. São coisas diferentes.
A própria Constituição garante ao jornalista uma proteção fundamental: o sigilo da fonte quando necessário ao exercício profissional. Mas então a pergunta aparece inevitavelmente: quem é esse profissional? Onde termina o produtor de conteúdo, o torcedor que comenta futebol, o influenciador, e começa o jornalista? Se queremos os direitos próprios da profissão, também precisamos discutir suas responsabilidades.