03/10/2026
Domingo nas urnas, segunda na luta (Coluna da ASERGHC no Sul21)
Quatro anos depois da derrota de Jair Bolsonaro, o bolsonarismo não é uma lembrança do passado. Continua sendo uma força política organizada, com presença social e capacidade eleitoral. Essa é uma das constatações mais importantes desta eleição.
Em 2022, diante do risco representado por Bolsonaro, formou-se uma frente política amplíssima, reunindo setores que tinham pouco em comum além da necessidade de derrotá-lo. Havia a expectativa de que a derrota eleitoral abriria também um processo de enfraquecimento da extrema direita.
Não foi o que aconteceu.
O bolsonarismo atravessou os últimos quatro anos e chega novamente a uma eleição presidencial disputando milhões de votos. Isso deveria afastar uma ilusão: a de que a extrema direita pode ser enfrentada apenas a cada quatro anos, dentro de uma urna, ou administrada por acordos construídos no andar de cima da política.
Para quem trabalha na saúde pública, há bons motivos para não tratar essa eleição como uma discussão abstrata. As escolhas feitas em Brasília chegam rapidamente aos hospitais. Aparecem no orçamento, no tamanho das equipes, nos concursos, nos salários, na estrutura dos serviços e na definição sobre qual deve ser o papel do Estado na garantia do direito à saúde.
Também carregamos a memória da pandemia. Os trabalhadores da saúde estiveram na linha de frente e conheceram de forma brutal as consequências de decisões políticas tomadas naquele período.
Isso ajuda a dimensionar o que está em disputa no domingo. Mas não nos obriga a fazer de conta que os últimos quatro anos resolveram os problemas do país, muito menos os problemas enfrentados pelos trabalhadores do Grupo Hospitalar Conceição.
É aí que a independência da ASERGHC faz diferença.
Não somos extensão de governo, partido ou administração. Nossa referência é a vida concreta de quem trabalha no GHC e a defesa da saúde pública. Isso significa reconhecer avanços quando existem, mas também não silenciar diante daquilo com que discordamos.
E temos discordâncias importantes.
Enquanto se fala em expansão, modernização e no hospital do futuro, trabalhadores convivem com equipes insuficientes, sobrecarga, remanejamentos e condições de trabalho que temos denunciado repetidamente. Ao mesmo tempo, avançam terceirizações e uma proposta de Parceria Público-Privada para o novo complexo hospitalar do GHC que, para a ASERGHC, aponta na direção errada.
Queremos novos hospitais, mais tecnologia, mais leitos, melhores instalações e capacidade para atender mais gente pelo SUS. O que não aceitamos é que isso sirva para abrir espaço cada vez maior aos interesses privados dentro de uma estrutura construída com recursos públicos.
Apontar os erros do atual governo não diminui a gravidade de um eventual retorno do bolsonarismo ao comando do país. As duas coisas precisam ser ditas: a extrema direita deve ser enfrentada e os governos devem ser cobrados.
Transformar isso numa escolha impossível é uma armadilha. Não precisamos fechar os olhos para as contradições de um governo em nome da defesa da democracia, nem deixar de enfrentar a extrema direita para preservar nossa independência.
Direitos no GHC foram conquistados porque trabalhadores se organizaram, pressionaram e enfrentaram governos quando foi necessário.
É bom lembrar disso agora. No próximo domingo, cada trabalhador e cada trabalhadora fará sua escolha diante da urna. Mas, na segunda-feira, continuarão as escalas incompletas, a falta de pessoal, os problemas de carreira e salário, as terceirizações e a disputa sobre a PPP.
Quem vencer a eleição encontrará uma ASERGHC disposta a defender os trabalhadores.
Governos passam. Diretorias do GHC passam. Os trabalhadores permanecem e somos nós que mantemos os hospitais funcionando todos os dias. Nossa luta não terminar quando as urnas fecharem.
Publicado originalmente em https://sul21.com.br/opiniao/2026/10/domingo-nas-urnas-segunda-na-luta-coluna-da-aserghc/