12/03/2026
Como lida o advogado?
O médico cuida da vida.
O engenheiro, das obras e da tecnologia.
O economista, da riqueza e dos recursos.
E o advogado?
O advogado lida com direitos e conflitos sociais regulados pela lei.
Mas, por trás de cada processo ou contrato, há sempre pessoas, famílias e histórias de vida que serão transformadas.
Certa vez, advoguei para um pai e uma avó que propuseram uma ação de reintegração de posse contra o próprio neto.
O caso parecia simples: havia um comodato verbal, pelo qual o neto utilizava uma casa que o pai havia construído para a avó. O tempo passou, o neto se casou, teve filhos, e a relação entre sua esposa e a família nunca foi boa. Com o envelhecimento da avó, surgiu a necessidade de retomar o imóvel.
Pronto: estava instalado o conflito.
Distribuída a ação possessória, o neto apresentou contestação. Em sua defesa, trouxe argumentos vazios:
“Meu pai tem muitas casas. Eu reformei esta. Meu pai não precisa dela. Eu tenho direito.”
O caldo do conflito estava pronto.
A família estava dividida.
Duas irmãs do requerido depuseram como testemunhas do pai. A esposa do filho — também requerida — estimulava a revolta e rejeitava qualquer possibilidade de acordo. E, para tornar a situação ainda mais dramática, a mãe do requerido — ex-esposa do autor — depôs em favor do filho, expondo um verdadeiro caldeirão de mágoas e ressentimentos.
Minha estratégia foi buscar a conciliação.
De todas as formas tentei conduzir meu cliente a um acordo. No íntimo, eu sabia que a vitória processual era praticamente certa, mas também sabia que os danos às relações familiares poderiam ser irreversíveis. Não haveria sentença capaz de pacif**ar aquela situação.
No curso do processo, o filho abandonou a casa e o casamento se desfez. A ação prosseguiu apenas contra a nora.
Propusemos então uma solução conciliatória: um ano de aluguel, como forma de compensação e para permitir uma desocupação menos traumática.
A proposta foi rechaçada com veemência.
Veio a sentença.
Procedente para meu cliente.
O imóvel foi retomado.
Mas, no fim, restou apenas uma tarefa que nenhum processo judicial pode resolver:
reconstruir a relação entre pai e filho.
Porque, na advocacia, muitas vezes ganhar a causa não signif**a vencer o conflito.