22/05/2026
Parece ficção. Mas não é.
É a história real de uma mulher que entrou em uma audiência carregando laudos psiquiátricos, medidas protetivas e um reconhecimento estatal de violência psicológica que qualquer profissional atento reconheceria como grave.
Ela entrou fragilizada. Saiu ferida.
Não pelo agressor — mas pela instituição que deveria protegê-la.
A cena é digna de um filme: uma mulher medicada, com lapsos de memória documentados, tentando explicar sua própria fragmentação psíquica… enquanto era interrompida, pressionada e deslegitimada a cada frase.
No centro da audiência, como se fosse o grande enigma da trama, um objeto: um notebook.
O aparelho era dela. Mas o ex-marido apresentou uma nota fiscal em nome dele. Como num roteiro mal escrito, a magistrada decidiu que o bem era dele. Ignorou o contexto, ignorou a violência patrimonial e a realidade de milhares de mulheres que têm seus bens registrados no nome do companheiro.
“Cadê esse computador, hein?”
“Vai pegar em qualquer loja?”
As frases ecoaram como holofotes apontados para a VÍTIMA, não para a verdade. Enquanto isso, pedidos urgentes de alimentos, tratamento médico e suporte terapêutico — essenciais para sua sobrevivência — ficaram em segundo plano.
Como neurocientista, eu vejo o que o Judiciário insiste em ignorar: o trauma deixa rastros físicos e mentais que o sistema prefere chamar de “confusão”.
A saúde mental? Secundária.
A dignidade? Colateral.
O trauma? Invisível.
O Protocolo de Julgamento com Perspectiva de Gênero do CNJ, que deveria ser o roteiro obrigatório, simplesmente não foi seguido. O que deveria ser Justiça virou um espetáculo de revitimização.
Essa história não é isolada. É um sintoma de uma falha estrutural.
Estou abrindo este dossiê porque, quando uma mulher adoecida pela violência precisa lutar contra o próprio sistema para ser reconhecida, o silêncio se torna cúmplice.
Amplifique esta voz para que nenhuma mulher saia de uma audiência mais ferida do que entrou.