Félix Valois

Félix Valois Esse homem que cumprimento é ninguém menos que o herói nacional, Luís Carlos Prestes, o Cavaleiro da Esperança

25/10/2024

Sintomas de anormalidade – Felix Valois
O doutor Rogélio Casado foi dos psiquiatras mais respeitados neste Estado. Não tivesse ele cometido a besteira de morrer tão cedo, eu submeteria à sua apreciação a lista abaixo, que, no meu laico e modesto sentir, contém sintomas claros de anormalidade mental. Seria curioso ver quantas vezes acertei ou se, ao contrário, ele me submeteria a tratamento imediato:
Achar que o Lula e a Dilma são comunistas.
Achar que o Chico Buarque deixou de ser gênio porque é amigo do Lula.
Achar que o Bolsonaro e seus filhos são normais e democratas.
Achar que o Supremo Tribunal Federal é uma aberração porque mandou cumprir a Constituição.
Ter saudades da ditadura.
Elogiar torturadores.
Gostar de dupla sertaneja, axé e funk.
Torcer pela Argentina.
Achar que o Neymar é um craque.
Dizer que bandido bom é bandido morto.
Achar que a reforma da previdência vai resolver todos os problemas do país.
Achar que prender as pessoas é a forma mais eficiente de combater a criminalidade.
Não gostar de Mozart.
Ser um antitabagista chato; ser um ecochato. Aliás, ser chato de modo geral.
Ser anticomunista.
Ser fanático religioso.
Considerar o Maduro e o Evo Morales marxistas.
Ler livros de autoajuda.
Não ler livro nenhum.
Dizer que o nazismo era de esquerda.
Ver o Cristo numa goiabeira.
Ver novelas.
Comentar as novelas.
Assistir ao Faustão, ao Fantástico e ao Sílvio Santos.
Passar trote para o SAMU e para os bombeiros.
Não gostar de pirarucu, tucupi e pimenta murupi.
Não achar o Rio Negro boçal de tão bonito que ele é.
Não gostar de Manaus.
Dizer que joga bingo muito bem.
Achar que o Maradona foi melhor que o Pelé.
Depois dos sessenta, não ter netos.
Não fazer tudo o que os netos querem.
Não tomar uísque Johnnye Walker rótulo vermelho.
Colocar refrigerante no uísque.
Nunca ter visto um pôr do sol na baía do Rio Negro.
Tomar vinho em copo descartável e/ou sem um copo d’água ao lado.
Não distinguir viaduto de v***o adulto.
Achar que a polícia federal não erra.
Ter medo de fantasma.
Gostar de luta-livre e condenar briga de galo como desumana.
Achar que câncer só dá na casa do vizinho.
Não gostar de Pavarotti, Plácido, Carreras e Bocelli.
Nunca ter lido Machado de Assis e Eça de Queiroz.
Ter lido e não gostar de nenhum deles.
Usar o zapzap para f**ar desejando bom dia e bom domingo.
Usar o facebook para alardear o que está fazendo, como se interessasse a alguém.
Dizer que o Brasil não é um país sério.
Beber e dirigir. E achar que dirige melhor quando bêbado.
Achar que “navegar é preciso” signif**a que navegar é necessário.
Conseguir ler até o fim “Grande Sertão, Veredas”.
Achar que “o que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil”.
Atravessar rua falando ao celular.
Ch**ar din-din.
Não gostar de tartaruga.
Fazer uma tartarugada com batata portuguesa, azeitona e ovo de galinha. E maxixe.
Ser ra***ta e/ou homofóbico.
Endeusar o Moro como paladino da justiça. “Somos todos Moro” uma ova.
Acreditar que o Edir Macedo é um santo homem.
Pensar que os direitos humanos só servem para proteger bandido.
Ser admirador do Trump. Mas aí eu acho que já não é só um sintoma.
A lista está aberta para inclusões e exclusões.

18/10/2024

ELUCUBRAÇÕES – Felix Valois
Na eleição, 779 pessoas acreditaram em mim. O outro fui eu próprio. Já considerei “pífia” essa votação. Vejo agora que não foi. Sou velho, não tive dinheiro e estava há muito tempo longe da política partidária. São fatores consideráveis. Minha mensagem, na campanha, foi sempre a da honestidade e da transparência. Se esse número de eleitores aceitou essa proposta, cuido que, em condições mais favoráveis, será possível fazer com que ela chegue mais além.
Importa salientar que, em nenhum momento, neguei minhas origens ou minhas convicções. Quem o faz, creio, caminha celeremente para a perda de respeito. Essa postura firme e aberta me permitiu falar francamente com muitos de posições políticas divergentes das minhas e lhes mostrar que está longe de mim o fanatismo, assim como fazê-los ver que jamais pretendi ser proprietário da verdade.
Se assim me expresso é porque não consigo sopitar uma imensa preocupação com o futuro do meu país. Futuro que, para mim mesmo, é de curtíssima duração. Mas tenho filhos e netos, com a breve chegada do primeiro bisneto. Não quero que eles tenham de seu ancestral a imagem de um alienado ou de um mentecapto, capaz de acreditar que a terra é plana. Isso, nunca.
A ditadura de 64 serviu, pelo menos, para mostrar que os militares não detêm o monopólio do patriotismo. Muito ao contrário. Pelas atrocidades e desmandos que praticaram, restou evidente que seu sentimento de Brasil, forjado no autoritarismo, está muito longe da “pátria amada” com que sonhamos. Foram vinte e um anos de sombras e chumbo.
Parece não ter sido suficiente. Ainda se ouvem ecos das vozes que proclamam o negacionismo e o atraso, assim como se fôssemos incapazes de construir uma nação forjada na solidariedade e no respeito absoluto ao ser humano. É isso difícil? Com certeza. Mas são exatamente os obstáculos que nos devem servir de incentivo para, em os superando, conquistar o objetivo de construir uma sociedade mais justa e igualitária.
Nos últimos tempos, tem sido recorrente, aqui em nosso país, a invocação de Deus para justif**ar atrocidades e ignomínias. E imbecilidades. Assim é que se retoma o ideário fascista para proclamar sandices como “Deus, pátria, família e liberdade”. Mas, coisa curiosa, os que desfraldam essa bandeira são os mesmos responsáveis pela morte de mais de setecentos mil brasileiros, durante a pandemia, pela negação da ciência. Os mesmos que venderam refinarias nacionais a preço de banana, em troca de joias ilegalmente subtraídas do erário. Os mesmos que incentivaram a venda de armas de fogo, ao argumento id**ta de que a posse delas é pressuposto da liberdade.
Toda a gente que me conhece sabe que sou ateu e de formação marxista (comunista, se preferirem). Mas sabe também, como deve poder atestar qualquer dos deuses em que os crentes depositam sua fé, que jamais fui partidário de alguma forma de intolerância religiosa. Muito ao contrário. Cuido que ter fé é uma questão de foro íntimo, que há de ser respeitada como qualquer outra convicção. O que não se deve admitir é que, em nome da fé, seja em qual crença ou seita for, a sanidade fique comprometida, de tal forma a permitir espetáculos ridículos e ofensivos ao bom senso.
Mais do que isso: a religião não deve e não pode ser usada como sustentáculo da ignorância grosseira, aquela que tende a negar evidências científ**as basilares, a ponto de ensejar que um energúmeno pretenda ser a terra plana. E mais ainda: não deverá abonar a conduta de criaturas ridículas que, alardeando um falso compromisso com a fé, dela fazem uso para a satisfação de interesses pessoais e escusos.
Alongo-me e não gosto disso. Então termino dizendo que, no pouco tempo que me resta, e consciente da minha insignificância, não recuarei um milímetro na luta por um Brasil melhor para todos. Sem fome e sem discriminação. Com escolas eficientes e sem ordem-unida, onde os professores sejam bem remunerados e respeitados. Com um povo consciente de que a construção de seu destino só depende dele mesmo.
Sonho? Talvez. Acho que isso me é permitido.

12/10/2024

O AVANÇO DA DIREITA – Felix Valois
A indiscutível vitória da direita nas eleições municipais é um fato. Negá-lo só revela falta de visão política. Lamentar, igualmente não leva a nada, sendo certo que chorar sobre o leite derramado ap***s consegue misturar os líquidos, sem lhes alterar a substância. Estou somente tentando dar uma opinião sobre o que se pode esperar depois do ocorrido e do que talvez possa ser feito para frear esse avanço do neofascismo no Brasil. A coisa é tanto mais preocupante quando se sabe, pelas pesquisas, que essa subida vertiginosa tem o apoio quase maciço da juventude.
Vejamos. Lula venceu a eleição presidencial com margem apertada de votos. E lutava contra a figura mais emblemática do atraso e do negacionismo. Agora, no poder há dois anos, parece óbvio que seu esquema de comunicação é, no mínimo, duvidoso. Já houve conquistas importantes, como o aumento do emprego formal e o crescimento do PIB, mas a população não consegue assimilar esses dados, que acabam perdidos no tornado da mídia, comprometida, na maioria, com a própria direita.
Abordo agora minha recente experiência. Cometi a ousadia (ou temeridade) de me candidatar à vereança. O PT, que me acolheu com muita gentileza, disponibilizou pouco mais de ridículos quinze mil reais para a campanha. Com ajuda da família, de amigos e sem militância, usei as redes sociais para divulgar meu nome. Quanta ingenuidade! Tive pífios 780 votos que, acredito, se deveram menos ao fato de me chamarem de “velho comunista” do que à generosidade dos amigos e de parte da intelectualidade manauara. Reaprendi a lição, que tinha de cor desde os longínquos tempos da minha juventude quando Geraldo Campelo endossou meu ingresso no Partido Comunista Brasileiro: sem ir às massas, sem conviver com elas, não há como conquistá-las.
Tenho, então, como certo que as esquerdas precisam assimilar, com urgência, a lição popular: “cobra que não anda não engole sapo”. Em outras palavras, temos que pôr a boca no trombone, temos que ir às ruas, sempre acreditando que estamos com a verdade ao nosso lado. Sem isso, o campo estará aberto para os que cantam o hino nacional para pneus, invocam Ets pelo celular e acreditam que comunistas comem criancinhas. Isto porque a ignorância, exatamente por o ser, não conhece limites e consegue extrapolar qualquer parâmetro de decência.

11/10/2024

ANTICOMUNISMO – Felix Valois
À simples audição da palavra “comunismo” (ou seus derivados), a moça entrava em estado de pânico e tinha que ser socorrida com sais aromáticos para evitar um delíquio. Não que ela se preocupasse com a propriedade dos meios de produção ou com a distribuição de renda. Nada disso. Comunismo para ela não era uma doutrina socioeconômica oposta ao regime capitalista. No seu imaginário, tratava-se ap***s da encarnação da besta do Apocalipse, capaz de levar a humanidade à extinção pura e simples, por via da prática de atrocidades indescritíveis. O estupro de freiras e a degustação de cérebros humanos infantis, por exemplo, eram as atividades preferidas dos comunistas, conforme afirmava com a mais absoluta convicção a nossa he***na, de nome Euzébia, produto perfeito e acabado da Guerra Fria e vítima de massiva propaganda.
Alie-se a isso a formação intensamente religiosa da moça, interna que fora em colégio católico. Sua professora de catecismo, Irmã Eugênia, não se cansava de repetir nas aulas diárias, que todo cuidado era pouco com os comunistas porque estes, insidiosos e hipócritas, não perdiam nenhuma oportunidade de se infiltrar mesmo nos lares mais bem estruturados. “Comunista não é gente”, bradava com ênfase a boa freira, sempre disposta a contar um pesadelo recidivo que a atormentava durante as noites, depois das orações na capela. Era assim a alucinação: em fila, as freiras se dirigiam à igreja para o serviço das matinas. Na semiobscuridade da noite de lua minguante, eis que lhes é dado divisar, na porta principal do templo, uma horrenda e gigantesca figura, misto de homem e dragão. Ajoelham-se as freiras, em oração e em prantos, sem conseguir desviar as vistas do monstro, que lançava fogo pelas narinas. A prioresa, num rasgo de coragem e fé, ergue-se e proclama: “Somos filhas de Deus e esposas de Cristo. Quem és tu, infame criatura, que ousas atormentar a nossa paz?” Não era uma voz o que se ouviu em resposta. Era, antes, um grunhido pavoroso, roufenho e malévolo, a dizer: “Ora, quem sou. Sou o comunismo e não tardará o momento em que vereis desabar sobre a vós toda a minha ira destrutiva e avassaladora”. Como veio, assim se foi a aparição e Irmã Eugênia despertava entre suores frios e um medo desumano.
Por cima de tudo, a nossa Euzébia não era figura que primasse por dotes de beleza física. Os mais inclementes diziam mesmo que ela era feia como a justiça de Tefé. Tendo escolhido a enfermagem como profissão, não lhe foi difícil compreender a natureza de certas manchas que lhe apareceram na pele. Era vitiligo. Socorreu-se, como era natural, dos serviços de um dermatologista de sua confiança que, após lhe explicar a natureza e a evolução da doença, teve a modéstia de lhe afirmar que, em Cuba, ela poderia encontrar tratamento mais adequado e mais avançado. Foi o mesmo que cutucar o cão com vara curta. A moça ficou uma fera e, dedo em riste, vociferou para o esculápio: “Admiro-me do senhor, doutor. Conhecendo-me, como o senhor me conhece, ter a ousadia de sugerir que eu, esta serva de Deus, vá me submeter a tratamento com aqueles comunistas (o sinal da cruz veio em seguida). Deus me livre. Antes uma boa morte do que permitir que um barbudo nojento daqueles toque no meu corpo”.
Era inevitável: Eusébia se tornou membro da TFP. Essa organização (Tradição, Família e Propriedade) era o que podia haver de mais cretino e reacionário na segunda metade do último século. Desfraldando agourentas bandeiras pretas, saíam em bandos pelas ruas, a fazer pregações e a visitar famílias, tudo com o intento primacial de prevenir a todos contra os perigos do comunismo. Nessa faina, entra o grupo de fanáticos na humilíssima residência de uma velha, num dos bairros periféricos de Manaus. Chão batido, desprovida de qualquer superfluidade, a casinha era a própria imagem da pobreza, raiando a miséria. O porta-voz do bando exorta a velhinha: “Minha boa senhora, tenha muito cuidado com o comunismo”. Sentada num caixote de madeira, a anciã indaga: “O que é comunismo?” A resposta não se fez esperar: “É um bando de malvados que não tem piedade de ninguém. Eles tiram o que é da gente para distribuir e não pagam nada”. A réplica foi mortal: “Tomara que já venha, então, esse tal de comunismo. Pode ser que eu acabe ganhando uma cadeira de balanço”. Pano rápido. A horda deu marcha a ré e foi atormentar em outra freguesia.

04/10/2024

MANAUS E SEUS PROFESSORES – Felix Valois
No mês em que se comemoram o aniversário da cidade e o Dia do Professor, deliberei transcrever texto publicado em 2014. Eis aí:
Manaus está aniversariando. Como o mais entusiasta de seus adoradores, deveria eu mandar-lhe flores, que é o procedimento cavalheiresco. Seria pouco e nem sei se ela, nascida no meio de exuberante floresta, teria o mimo na devida conta das intenções do ofertante. Dizer-lhe que a amo é recidiva e, também aqui, seria ap***s mais uma voz que se integraria ao coro dos muitos a proferirem a mesma declaração, justa e merecida porque Manaus encanta e cativa, envolvendo-nos com a linda imponência do Rio Negro e queimando-nos a tez com o seu “sol moreno”, na imagem do poeta Chico da Silva.
Digo-lhe, então e ap***s, da minha infância e da minha juventude, nas suas ruas e igarapés, e das mulheres e homens que, como professores, influenciaram decisivamente minha formação. Eram tempos mais calmos e a cidade ainda não se havia transformado na metrópole de hoje. Sem saudosismo, eram também tempos melhores. Ir à aula no Grupo Escolar Princesa Isabel já era passeio mais que agradável, só por atravessar a Praça da Saudade, com seus caramanchões e buganvílias. Na escola, a presença maternal de dona Olga Rocha. Voz roufenha, era rigorosa na disciplina e não tergiversava na cobrança do aprendizado, uma vez que o Ministério da Educação ainda não tinha manifestado a genialidade de proibir as reprovações. Sua régua não tinha objetivo ap***s de medições, por isso que encontrava aplicação bem mais prática quando das sabatinas semanais. Ela e dona Neuza Lemos foram as presenças que povoaram minha passagem pelo curso primário que hoje, salvo engano, atende pelo apelido de ensino fundamental.
Aos onze anos subi as escadas para frequentar o curso ginasial no Instituto de Educação do Amazonas. A diretora era ninguém menos que a professora Eunice Serrano Telles de Souza, figura emblemática do ensino e da educação nestas paragens. Dali as lembranças se multiplicam. Muito orgulhoso daquela espécie de “up grade”, ia eu todo serelepe para os tempos de aula diferenciados por disciplina, certo de que (vejam só) já era gente. E assim foi que em matemática, a professora Iza Brito me tascou um sonoro três, logo na primeira prova, o que fez acender a luzinha de alerta para a minha completa ignorância.
Estudávamos latim, por incrível que pareça, e os professores Miguel Duarte e Agenor Ferreira Lima não refrescavam na cobrança de declinações e desinências, forçando-nos a algo hoje tão fora de moda que é a convivência com a origem mesma da língua-mãe, sem a qual é impossível expressar-se em português com o mínimo de decência e fluidez. E, paralelamente, o professor João Chrisóstomo de Oliveira nos fazia imergir nos mistérios do idioma pátrio. Quantas horas, à luz de vela, passei elaborando, em cartolina branca e com tinta nanquim, mapas de radicais gregos e latinos! Saudosíssimo professor João Chrisóstomo. É eterna minha dívida de gratidão.
O professor Armando Menezes sempre foi a própria simpatia e com ele íamos desvendando os fatos da história de nossa pátria, enquanto a professora Neuza Ferreira se encarregava da História Geral. Inglês, com a professora Garcineia do Lago e Silva, francês, com o professor Miguel Duarte, e, acreditem, até canto orfeônico, onde a professora Lila Borges de Sá tentou, com dedicação e competência, mas inutilmente, tirar-me das trevas em que até hoje vivo em matéria de teoria musical.
Já no Colégio Estadual do Amazonas, para o curso clássico, impossível não lembrar do poeta Farias de Carvalho. Se suas aulas de literatura brasileira não primavam pela didática, não havia como deixar de lado a emoção quando ele, voz poderosa, declamava: “Hoje eu queria escrever um poema diferente, sem o chiquê das formas elegantes, nem a rotina das velhas tradições”. Era o “Meu Canto Novo” que meu irmão interpreta de forma impecável. No velho Ginásio, a História Geral estava a cargo do professor Manoel Otávio Rodrigues de Souza. Elegante, culto e eloquente, sempre foi referência para qualquer aluno que tenha frequentado aqueles bancos escolares. Otávio Mourão, Vilar Câmara e Afonso Celso Maranhão Nina pontif**avam nas ciências exatas.
Também estudei na escola Sólon de Lucena. O professor Antônio Gonçalves da Encarnação Filho, com seu charuto e seu sotaque lusitano, era intransigente na cobrança do correto falar e escrever. Ao seu lado, um com cuja citação encerro esta crônica despretensiosa. Não era ele nem melhor nem mais sábio que seus pares. Com eles ombreava em competência, mas tem lugar privilegiado no meu afeto. Falo do professor Felix Valois Coelho, meu pai. Cinquenta e oito anos passados não diminuíram um milímetro a saudade de sua presença amiga e afável.
Com todos eles, e também em homenagem a eles, celebro o aniversário de Manaus, desta Manaus onde ensinaram, despertando para o mundo gerações seguidas de cidadãos brasileiros. Que seus ensinamentos nos guiem os passos no próximo domingo.
MANAUS, QUEM AMA, RESPEITA - FELIX VALOIS 13.339

27/09/2024

FUNDAMENTALISMO – Felix Valois
Ao definir “fundamentalismo”, Houaiss diz que se trata de “movimento religioso e conservador, nascido entre os protestantes dos E.U.A. no início do século XX, que enfatiza a interpretação literal da Bíblia como fundamental à vida e à doutrina cristãs”, esclarecendo que, “por extensão de sentido”, o termo hoje se aplica a “qualquer corrente, movimento ou atitude, de cunho conservador e integrista, que enfatiza a obediência rigorosa e literal a um conjunto de princípios básicos; integrismo”. É, digo eu, a tolice dicionarizada e institucionalizada, na medida em que todo fundamentalista se pretende dono absoluto da verdade e, por via de consequência, não pode admitir a discussão dialética sobre os pontos em que assentam suas crenças e princípios.
Nada mais obscurantista e retrógrado. Se o termo tem datação do século passado, não quer isso dizer que o pensamento nele ínsito tenha sido desconhecido de épocas anteriores. Muito pelo contrário. Um simples voo de pássaro sobre a história das religiões mostra que ela está cheia fundamentalismos, como é possível detectar, só à guisa de exemplo, na Inquisição instituída e sustentada pela Igreja Católica por mais de quatro séculos. A intolerância era a marca e a simples suspeita de heresia era suficiente para levar à fogueira homens, mulheres e crianças.
Em razão das condições socioeconômicas e políticas da época, esse tipo de concepção se introduziu mesmo nas legislações dos países, como é o caso de Portugal, cujas famosas Ordenações, principalmente o livro V das Ordenações Manuelinas, são uma mistura de direito penal e catecismo, mas de um catecismo odioso e impiedoso, em que as p***s cruéis são estabelecidas à farta.
E o que dizer da Revolução Francesa? Se representou um movimento burguês de liberação contra as rígidas regras do feudalismo e daquela mesma intolerância religiosa, descambou, ela própria, para um fundamentalismo incompreensível, bastando recordar o ano do Terror, em que a guilhotina foi empregada a mancheias, deixando marcas indeléveis de sangue no solo e na civilização de França. É que, perdido o senso da realidade, quem não se amoldava à nova ordem era necessariamente inimigo e tinha que sofrer os efeitos da repressão mais insensata. Algo como, guardadas as devidas proporções, aconteceu no Brasil pós 64, onde quem não rezava pela cartilha dos militares era execrado, humilhado e torturado, chegando-se ao ponto de reinstituir a pena de morte, a qual, se nunca foi oficialmente aplicada, não deixou de sê-lo nos porões da ditadura.
Teoricamente foi superado o período da Guerra Fria, com a bipolarização do mundo. Mas foi era de brutais radicalizações recíprocas, destacando-se, de um lado, a construção do muro de Berlim e, de outro, a implacável perseguição à República de Cuba, com um embargo insano que se estendeu por mais de meio século. E há quem me venha dizer que, com o término do tal embargo, Cuba “restaurará as práticas democráticas”. Ensinadas por quem? Ora, por quem impôs o embargo, já que, nessa visão fundamentalista, nada mais democrático do que estabelecer um clima permanente de conflito e medo pelo só fato de os regimes políticos serem diferentes.
Extinta a oposição maniqueísta entre as duas ideologias de então, o eixo do problema parece ter sofrido deslocamento, ressurgindo na forma de uma guerra religiosa que se julgava inviável e impossível. O conflito entre judeus e árabes é a feição mais evidente desse novo quadro. Seria ingênuo acreditar que os interesses econômicos não estão presentes na pendenga. Mas a maneira como esses interesses se manifestam vem enroupada de uma intolerância religiosa, assim como se Jeová e Alá fossem inimigos inconciliáveis e cada um a seu modo estivesse disposto a lutar por uma hegemonia, qual aquela com que sonhou o austríaco do III Reich.
A insensatez se expande sem cerimônias, deixando perplexas as pessoas de bom senso e fazendo soar o aviso de alerta de que é preciso pensar, antes de mais nada, na sobrevivência da humanidade. Nem sei, aliás, se a merecemos. E não estou sendo negativista. Mas é que se afasta de mim a esperança quando vejo doze pessoas serem assassinadas somente porque, por via do humor, tiveram a suprema ousadia de satirizar um profeta. Onde estamos e para onde iremos? Maomé, por certo, não endossaria a estupidez, tal como Cristo teria apagado as fogueiras inquisitoriais.
Resta sonhar com um mundo sem id**tas. Não importa que a idiotice se apresente como fundamentalista ou ra***ta, como religiosa ou política. Não deixará de ser idiotice qualquer que seja a máscara usada. O que interessa é bani-la, sufocá-la até que ela sucumba nos estertores de sua própria origem espúria. Talvez aí possamos merecer a vida e lutar por ela. Sumam, id**tas de todo o mundo! Sumam e não voltem para que a Humanidade se possa sentir digna desse nome.

20/09/2024

COMPROMISSOS DE CAMPANHA – Felix Valois
No próximo ano, deverei completar seis décadas do exercício da advocacia. Neste momento, estou candidato a vereador, em Manaus, concorrendo com o número 13.339. Pus-me, então, a comparar as duas atividades, a atual e a pretendida. Uma obviedade se apresentou: ambas só podem ser exercidas através da palavra, escrita ou oral. O advogado faz sustentação verbal ou encaminha petições. O parlamentar, igualmente, seja de que nível federativo for, discursa na sua casa legislativa ou a ela dirige requerimentos ou propostas.
Essa conclusão evidente me trouxe tranquilidade. É que, admitindo a possibilidade de ser eleito, não terei que mudar muito minha rotina; ela ap***s sofrerá adaptação para o novo ambiente, onde já não poderá haver o trato de direitos individuais, porque o coletivo há de sempre prevalecer em um parlamento.
Vai daí que apresento abaixo pontos que podem ser considerados como compromissos de campanha. Assuntos em que sempre se ouvirá minha voz ou se poderá ler minha manifestação escrita. Ei-los:
01- Lugar de criança é na escola. É dever do poder público extinguir o degradante espetáculo de crianças a esmolar nos semáforos.
02- As escolas deverão ter as necessárias condições tecnológicas e seus professores devem ser remunerados com respeito e consideração à importância de seu trabalho.
03- Vivemos literalmente no centro da maior floresta do mundo. Não se admite que Manaus seja uma das cidades menos arborizadas do Brasil. O clima, sem a sombra de árvores, naturalmente esquenta e dificulta a rotina das pessoas. Minha voz se erguerá bem alto para proclamar isso e subirá ainda mais de tom diante de qualquer agressão ao ambiente. Derrubar uma árvore, sem um motivo de relevância insuperável, é um crime de lesa-humanidade.
04- Por que não temos um parque urbano, devidamente arborizado para proporcionar sombra? É preciso valorizar o espaço urbano, dando destinação apropriada a tantos imóveis abandonados. A criação de um parque desse tipo é exigência da infância e da velhice. Ali, as crianças poderão brincar e os velhos, como eu, poderão sentar à sombra e se dedicar à leitura.
05- Os nossos igarapés estão, há muito tempo, clamando por socorro. O que se fez com eles é indescritível para uma sociedade civilizada. Lá estarão minha voz e meu texto a exigir que os nossos cursos d´água sejam tratados com o respeito que merecem, até porque são eles fonte de vida.
06- Manaus nasceu bonita. Mas nada tem sido feito para manter essa beleza. Muito ao contrário: parece haver a deliberada intenção de enfeiar a cidade, seja entupindo-a de lixo, seja não lhe realçando os predicados naturais. Vamos embelezar Manaus, minha gente. Basta colocar nos lugares certos as nossas inúmeras árvores que produzem flores e frutos.
07- Que tal respeitar a cidade? Não foi à toa que escolhi como slogan de campanha a afirmação MANAUS, QUEM AMA, RESPEITA. A cidade em que vivemos merece esse respeito, quando nada porque é dele que vai depender a nossa qualidade de vida e o futuro de todos.

Muito mais há que ser feito e estou pronto para ouvir propostas e sugestões. Mas f**a, de qualquer forma, o meu compromisso. Espero vir a ser cobrado.

13/09/2024

CRIANÇA E ADULTO – Felix Valois
Heleninha chega perto de mim e proclama: “Vovô, olha como eu já estou grande; estou batendo quase no teu pituco”. Vamos traduzir: “pituco” é um termo inventado e usado por ela própria nos tempos de amamentação e com o qual reivindicava o direito de uso e abuso quanto ao seio materno. Temos, pois, como não parece difícil inferir, que a menina estava toda gabola porque, em altura, sua cabeça estava para atingir a região em que se situa o peito do avô. Tudo terminou em risada, mas este velho ficou a matutar, em íntima e inútil filosofia, sobre qual será a razão que leva as crianças a esse intenso desejo de crescer e virar adulto.
Dir-me-ão os críticos mais ou menos descansados: “Ora, mas que tolice. Chega a ser intuitivo que assim pensem e queiram os infantes. Afinal de contas, vivem eles num mundo em que os adultos mandam e desmandam, inclusive ditando-lhes ordens e comandos que, por não entenderem, hão de receber como uma espécie determinação divina”. Recebo o ralho com humildade e me declaro vencido, mas não convencido. Longe de mim acreditar que falta razão ao fictício admoestador. Nada disso. Ap***s, talvez, me deixo levar por uma divagação inconsequente, cheia de um superado romantismo (quem sabe?), para ter como estabelecido que a superação da época da inocência, mesmo sendo inevitável, não deixa de carregar seu quinhão de crueldade.
Os mais antigos, aqueles que, como eu, já estão na sala de espera do nada, hão de se lembrar do lamento de Ataulfo Alves: “Eu daria tudo o que tivesse, pra voltar aos tempos de criança”. E não se diga que o poeta está a clamar por uma vida de fausto e luxo. Não. Recorda-se ap***s de que, no seu “pequenino Miraí”, ele jogava botão sobre a calçada, ao mesmo tempo em que canta a “saudade da professorinha que me ensinou o bê-a-bá”. E pergunta: “Onde andará Mariazinha?/Meu primeiro amor onde andará?”. Não sei se teve resposta a angústia do bardo e se ele voltou a ter nos braços a menina-moça que lhe acalentou os anos pueris. Sei ap***s que eu próprio, trazendo tais versos para a memória, disponho-me a entender o desejo da Heleninha, mas me disponho ainda mais a aproveitar com intensidade redobrada este período da sua delicada ingenuidade.
Porque ele não tem preço. Nem volta, salvo no fértil e vasto campo da poesia, aonde ele pode comparecer como reminiscência para atestar, como o fez o próprio Ataulfo, que “era feliz e nem sabia”. O pior é que, sem preço e sem volta, ainda é curto o tal tempo. Fugidio, fugaz, ele se evola com rapidez de raio, criando nos mais velhos um misto de raiva e remorso por não terem sabido aproveitar e apreciar como deveriam as delícias que só as crianças conseguem propiciar.
Como não lamentar que tenha sido tão breve o episódio surreal que presenciei numa noite da semana passada? Estava eu na varanda de casa, dedicando-me ao irreversível vício do tabagismo, usado como intervalo entre uma leitura e outra ou depois de pausar o filme na televisão. Chegam juntas Heleninha e sua prima e pareceira, do mesmo tope, a Ayla. Sentam-se na mesma cadeira e f**am me olhando. Ayla dispara: “Vovô, por que que tu fumas?” Explicação imediata da Helena: “Porque se ele parar de fumar, ele morre e vira caveira”. E a ponderação sublime: “Então não para de fumar, tá, vovozinho querido?” Quase me desmancho de satisfação, de euforia, de leseira de avô mesmo, que só nós podemos saborear a contento uma coisa tão gostosa como essa. O mais grave é que, depois da exortação assim feita, as duas saíram juntas para o quarto, onde algum desenho animado servia de atração. Eu, todo besta, terminei e apaguei o cigarro e igualmente entrei. Levei um susto: Ayla veio correndo para os meus braços, a bradar: “Vovô, vovô, por que tu parou de fumar? Eu não quero que tu vires caveira”.
Vai longe, muito longe, o tempo em que eu próprio jogava botão de caroço de tucumã, no porão da velha casa da rua Leonardo Malcher. O tempo em que o professor Valois, franzino e moreno, me levou pela mão para ver as águas do Rio Negro que haviam invadido a cidade e estavam lambendo a calçada do Relógio Municipal. O tempo em que dona Lucíola, costurando na máquina Singer, se punha a entoar os acordes de “Branca”, lançando na tarde a melodia: “Há tempos que a vi/Eu a conheci/Ela era linda um primor de amor/Misto de sonho e de flor”. O tempo em que minhas irmãs, fardadas de azul e branco, ansiavam pelo 24 de maio, data em que, muito prosas, participavam da procissão de Nossa Senhora Auxiliadora, a partir do colégio do mesmo nome, em que estudavam. Do tempo em que meu irmão, também aluno salesiano, contava as histórias do padre Filinto, no colégio Dom Bosco, e em que ele e eu exibíamos muito orgulhosos a faixa amarela da cruzada eucarística, além de disputarmos a primazia de ajudar à missa das sete na igreja de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, celebrada pelo padre Leão.
Tudo isso vai mesmo muito longe. Tudo isso não tem mesmo volta. Mas é por isso que, enquanto mergulho de cabeça no mundo encantado das minhas netas, sugando o que posso da sua tão pueril ledice, fico a acreditar que eu posso perfeitamente adotar a mesma conclusão de Ataulfo Alves. Não é inveja; ap***s, compartilhamento.

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