08/11/2025
Muitas vezes me perguntam por que escolhi cursar Direito. A verdade é que minha resposta não cabe em frases prontas sobre “gostar de ler” ou “amar debates”. Minha motivação nasceu da vida real, da dor e da urgência.
Poucos anos antes de entrar na faculdade, a mãe de uma amiga ficou gravemente doente, a cidade onde morávamos não tinha suporte hospitalar para o caso dela, ela precisava de transferência para uma unidade de maior porte.
Simples na teoria, impossível na prática.
Na rede pública, “vaga” é uma palavra que costuma vir acompanhada de silêncio.
A situação era urgente, então buscamos a Defensoria Pública, no plantão noturno da Capital. Foi uma madrugada que nunca mais saiu da minha memória, a sensação era de que minutos eram vidas.
No primeiro atendimento, fomos recebidos como “mais um caso”, mas ali não era mais um caso, era a vida da mãe da minha amiga.
A liminar foi obtida, graças ao quadro clínico extremamente grave, mesmo assim, a transferência não aconteceu no tempo que o corpo dela precisava, pouco depois, ela faleceu.
Aquilo me atravessou, ali eu decidi que eu seria a pessoa que lutaria até o fim por quem não tinha mais para onde correr.
Na Defensoria Pública, onde atuei por muitos anos, cada caso que chegava até mim não era um processo, era o MEU caso.
Eu só conseguia ir embora quando o assistido obtinha o que precisava, não importava a hora.
O meu descanso vinha quando alguém conseguia respirar outra vez.
Depois, fui para a advocacia criminal, e o meu propósito não mudou, continuo acreditando que as pessoas não podem ser estatísticas, e que dignidade não é um luxo.
Aprendi isso com Jesus: a vida é insubstituível. Cada uma.
Ao longo desses anos, vivi vitórias, frustrações e indignação diante das falhas do sistema, mas sempre em paz por ter feito o melhor que eu poderia.
No entanto, também vivi olhares de gratidão que jamais esquecerei.
E é por essas vidas, cada uma delas, que eu continuo estudando, evoluindo e me atualizando.
Estar hoje em um Congresso Nacional de Direito Penal é continuar a mesma missão que começou naquela madrugada: lutar para que ninguém seja tratado como “só mais um caso”.