06/09/2023
.AUDIÊNCIA.
[Alerta de textão]
Ontem, enquanto aguardava uma audiência em uma vara criminal da capital, um fato peculiar chamou minha atenção:
Um homem forte, aparentando ter entre quarenta ou cinquenta anos, segurando um chapéu de fazendeiro, perguntou ao meu grupo onde ficava o banheiro. Em seguida, disse: "É aqui, meu pai." Logo após, um senhorzinho saiu de trás dele, caminhando com dificuldade, mas guiado pela figura do filho, como um barco guiado por um farol, encontrou o desejado sanitário.
Essa imagem instantaneamente me fez refletir sobre a presença daqueles dois companheiros naquele lugar tão insalubre e não me refiro ao banheiro, mas sim à vara criminal de uma comarca da capital.
Em seguida, entrei na sala de audiências, pensando nos meus pais e no pai da minha cliente que, com medo, aguardava lá embaixo o desfecho daquela terrível audiência, onde a filha poderia ser condenada a uma pena de cinco a quinze anos de prisão.
O processo seguiu como a Defesa previa; a acusação não conseguiu provar o que desejava e, por isso, insistiu no improvável, resultando em um adiamento que vai gerar mais um ano de angustia para a família que eu represento.
Por outro lado, saí dali e enviei uma mensagem para a minha família.
Disse à minha mãe e ao meu pai que, quando eu era mais jovem, achava que eles me deviam por tudo o que eu não tinha. Achava que eles me deviam pela casa que meus amigos tinham e eu não ; pelo carro que meus amigos tinham e eu não; pelo celular que meus amigos tinham e eu não; pelas roupas e por tudo mais.
Hoje, um pouco mais maduro, entendo que eles não me devem nada. Sou eu quem lhes deve tudo.
Devo-lhes o afeto sempre presente; devo-lhes a educação pontual; devo-lhes as condições para concluir os estudos; devo-lhes a comida quente; devo-lhes a cama, a casa e o cobertor; devo-lhes a minha vida.
Ah, como sou grato por ter a vida que tenho, com os pais que tenho, da forma como tenho! Estou conquistando o mundo e nada me falta.
Que eu seja, em um futuro próximo, um farol para meus pais, assim como aquele filho que um dia disse para o senhor, numa situação meio insalubre: "É aqui, meu pai..."