02/10/2026
LULA: PRESIDENTE OU ÍDOLO?
Nietzsche nos alertou sobre os ídolos. Em Crepúsculo dos Ídolos, ele propõe filosofar “com o martelo”: submeter ao exame crítico aquilo que uma sociedade tornou intocável. Enquanto uma pessoa ou ideia pode ser questionada, permanece no campo da razão. Quando é protegida da crítica, entra no campo da devoção.
George Orwell mostra algo semelhante em A Revolução dos Bichos. O poder se protege pelo controle da linguagem, pela propaganda e pela manipulação da memória. Os fatos são recontados, os fracassos atribuídos aos inimigos e as contradições do líder justificadas. A propaganda passa a substituir a realidade.
Para parte de seus seguidores, Lula deixou de ser apenas um presidente sujeito à avaliação pública. Sua trajetória tornou-se uma narrativa quase sagrada: o homem pobre que venceu, o trabalhador que chegou ao poder, o perseguido que retornou e o líder que representaria o povo.
Essa construção possui tanta força emocional que seus atos já não são julgados objetivamente. Primeiro se verifica quem os praticou. Se foi Lula, busca-se uma justificativa; se foi um adversário, exige-se condenação.
Quando Lula acerta, o mérito é dele. Quando erra, a culpa é do Congresso, do mercado, da imprensa, das elites ou da oposição. Quando seu discurso contradiz sua prática, não se questiona o líder: reinterpreta-se a realidade para preservá-lo.
Nem todo eleitor age assim. Há escolhas econômicas e pragmáticas. Mas existe um núcleo para o qual Lula se tornou mais do que um candidato: um símbolo protegido da crítica.
Essa é a diferença entre presidente e ídolo.
O presidente presta contas. O ídolo recebe justificativas.
O presidente é fiscalizado. O ídolo é protegido.
O presidente pode ser criticado. O ídolo transforma a crítica em traição.
A imagem de Lula como santo é uma metáfora: representa o momento em que um governante deixa de ser julgado por seus atos e passa a ser defendido pela devoção dos seguidores.
Nietzsche usaria o martelo para testar esse ídolo. Orwell perguntaria quem controla a narrativa e reescreve os fatos.
Lula ainda é tratado como presidente ou já se tornou um ídolo cercado por devotos?