26/08/2026
ETANOL DE MILHO: A NOVA FRONTEIRA QUE REORGANIZA O AGRONEGÓCIO E DESAFIA A HEGEMONIA DA CANA-DE-AÇÚCAR
Durante décadas, falar em etanol no Brasil significava falar quase exclusivamente em cana-de-açúcar. O setor sucroenergético consolidou uma cadeia industrial poderosa, especialmente no Estado de São Paulo, transformando o país em referência mundial na produção de combustível renovável.
Essa hegemonia, entretanto, começa a ser relativizada pela rápida expansão do etanol de milho. Não se trata apenas da entrada de outra matéria-prima no mercado. Estamos diante de uma mudança estrutural que altera a formação dos preços, a localização das usinas, o aproveitamento das safras, a logística do agronegócio e a própria posição geopolítica do Brasil no processo mundial de transição energética.
Em 2024, o milho já respondeu por aproximadamente 20% do etanol produzido no país, com 7,55 bilhões de litros. Para 2025, a Empresa de Pesquisa Energética projetava uma participação de 23%. Na safra 2025/2026, a Conab estimou uma produção de 10,17 bilhões de litros de etanol de milho — crescimento de 29,8% em relação à temporada anterior. No mesmo período, a produção de etanol de cana foi calculada em 27,33 bilhões de litros, com redução de 6,9%. Esses números mostram que não estamos diante de uma experiência passageira, mas da formação de um novo segmento industrial com escala econômica relevante. EPE e Conab.
A VANTAGEM LOGÍSTICA DO MILHO
A principal diferença começa na própria natureza das matérias-primas.
A cana-de-açúcar é volumosa, pesada e perecível. Depois de cortada, deve ser rapidamente transportada e processada, porque perde qualidade com o passar do tempo. Por essa razão, as plantações precisam estar relativamente próximas das usinas. A indústria depende de uma operação integrada e contínua, envolvendo colheita, carregamento, transporte e moagem.
O milho, por sua vez, pode ser seco, armazenado e transportado por longas distâncias. A usina não precisa receber toda a matéria-prima imediatamente após a colheita. Pode formar estoques, negociar compras em momentos mais favoráveis e manter a produção durante praticamente todo o ano.
Essa possibilidade muda profundamente o modelo de negócio. A usina de milho pode ser instalada próxima das grandes regiões produtoras, das ferrovias e dos corredores de exportação. Também pode aproveitar o milho da segunda safra, especialmente no Centro-Oeste, agregando valor ao produto antes que ele percorra milhares de quilômetros até os portos.
O grão deixa de ser apenas uma mercadoria agrícola destinada à exportação e passa a ser matéria-prima de uma indústria energética.
Entretanto, não se deve concluir que o milho dispense logística ou infraestrutura. Ele exige armazenagem, secagem, controle de umidade e suprimento energético para a indústria. A vantagem está em sua flexibilidade temporal e comercial: diferentemente da cana, o milho não precisa ser processado imediatamente.
UMA INDÚSTRIA QUE PRODUZ MAIS DO QUE ETANOL
O avanço do etanol de milho também se explica pelo aproveitamento econômico dos subprodutos.
Além do combustível, o processamento gera óleo de milho e grãos secos de destilaria, conhecidos como DDGS, utilizados na alimentação animal. Assim, uma mesma unidade industrial pode atender simultaneamente aos mercados de energia, pecuária, avicultura, suinocultura e alimentação animal.
Esse modelo estabelece uma integração particularmente eficiente no Centro-Oeste. A região produz grandes volumes de milho e, ao mesmo tempo, expande sua criação de bovinos, aves e suínos. Os resíduos do milho transformam-se em ração, enquanto dejetos animais e resíduos industriais podem ser empregados na produção de biogás, biometano, fertilizantes e energia elétrica.
Forma-se, portanto, uma espécie de economia circular do agronegócio:
* o milho alimenta a indústria de etanol;
* a indústria produz combustível, óleo e ração;
* a ração abastece a pecuária;
* os resíduos podem gerar biogás e fertilizantes;
* a energia e os fertilizantes retornam ao sistema produtivo.
A própria EPE destaca que a expansão da segunda safra de milho, principalmente no Centro-Oeste, permite que as usinas operem durante o ano inteiro e obtenham receitas adicionais com ração animal e óleo. EPE.
O MILHO MUDA O PODER DE NEGOCIAÇÃO DO PRODUTOR
A industrialização energética oferece ao produtor rural uma alternativa ao mercado tradicional de grãos.
Quando há excesso de produção, limitações de armazenagem ou dificuldades de escoamento, o preço interno do milho tende a sofrer pressão. A instalação de usinas próximas às áreas produtoras cria uma demanda regional permanente e reduz a dependência exclusiva das exportações e dos portos.
O produtor passa a negociar com mais de um mercado:
* exportação;
* fabricação de ração;
* criação animal;
* indústria alimentícia;
* produção de etanol;
* produção futura de combustível sustentável de aviação.
Essa diversificação eleva o poder de negociação do agricultor, estimula investimentos em armazenagem e pode estabelecer um preço regional mais firme para o cereal.
Há, contudo, outro lado. Se a procura industrial crescer mais rapidamente que a produção, o milho pode ficar mais caro para criadores de aves, suínos e bovinos confinados. O avanço do etanol poderá, portanto, provocar disputas entre as cadeias de combustível e alimentação animal.
Os DDGS devolvem parte dos nutrientes à cadeia pecuária e reduzem esse conflito, mas não o eliminam completamente. A expansão precisa ocorrer acompanhada de ganhos de produtividade, infraestrutura e planejamento territorial, para evitar pressões excessivas sobre os preços dos alimentos.
O QUE ACONTECERÁ COM A CANA-DE-AÇÚCAR?
A cana não desaparecerá e dificilmente será substituída pelo milho. A consequência mais provável será uma reorganização do setor, com maior competição e, ao mesmo tempo, complementaridade.
A cana possui vantagens que o milho não reproduz integralmente. A partir dela, as usinas podem decidir quanto destinar à fabricação de açúcar e quanto transformar em etanol, conforme os preços internacionais. O bagaço gera v***r e eletricidade, permitindo que muitas unidades sejam energeticamente autossuficientes e ainda forneçam excedentes ao sistema elétrico.
Além disso, o etanol de cana geralmente apresenta uma elevada eficiência energética e ambiental. Essa característica poderá valorizá-lo em mercados internacionais que exijam combustíveis com menor intensidade de carbono.
A cana também será fundamental para a produção de:
* açúcar;
* bioeletricidade;
* biogás e biometano;
* etanol de segunda geração;
* combustível sustentável de aviação;
* bioplásticos e produtos da química renovável.
O problema será enfrentado pelas usinas que permanecerem presas a um modelo exclusivamente tradicional, com baixa produtividade, alto custo agrícola, equipamentos antigos e pouca diversificação.
A entrada do milho reduz a capacidade das usinas de cana de controlarem sozinhas a oferta nacional de etanol. Durante a entressafra canavieira, quando a menor disponibilidade tradicionalmente sustentava os preços, o combustível de milho poderá continuar chegando ao mercado. Isso tende a reduzir oscilações, ampliar a segurança do abastecimento e limitar aumentos sazonais.
A cana, portanto, não perde necessariamente sua importância, mas perde a exclusividade.
AS USINAS FLEX COMO RESPOSTA ESTRATÉGICA
Uma das respostas mais inteligentes será a transformação de determinadas unidades em usinas flex, capazes de processar cana e milho.
A cana pode ser utilizada durante sua safra, enquanto o milho mantém parte das instalações em funcionamento nos demais meses. Essa combinação aproveita equipamentos, trabalhadores, sistemas de fermentação, armazenagem e redes de distribuição já existentes.
Para os empresários do setor sucroenergético, o milho pode representar menos uma ameaça e mais uma possibilidade de diversificação. A usina deixa de depender somente da produtividade da cana, do clima regional e da cotação internacional do açúcar.
Não será uma solução universal. A viabilidade dependerá da disponibilidade regional de milho, do custo da energia, da distância entre lavouras e indústria e do mercado para os subprodutos. Em regiões com pouca oferta do cereal, uma conversão precipitada pode destruir, em vez de gerar valor.
UMA NOVA GEOGRAFIA DA ENERGIA BRASILEIRA
O crescimento do etanol de milho também desloca parte do eixo econômico da bioenergia.
Historicamente, São Paulo exerceu posição dominante na indústria de cana e etanol. O milho fortalece Mato Grosso, Goiás, Mato Grosso do Sul e outras áreas do Centro-Oeste. Novas unidades começam ainda a chegar ao Norte e ao Nordeste.
Essa interiorização produz empregos industriais, arrecadação e investimentos em municípios que antes dependiam quase exclusivamente da produção primária. A riqueza gerada pelo grão deixa de se concentrar apenas no comércio e na exportação e passa a financiar uma indústria instalada no interior do país.
Surge, assim, uma nova geografia energética: a cana mantém sua força no Sudeste, enquanto o milho transforma o Centro-Oeste em importante polo de combustíveis renováveis.
A DIMENSÃO GEOPOLÍTICA
No campo geopolítico, a combinação de cana e milho pode colocar o Brasil em posição excepcional.
Os Estados Unidos construíram sua liderança mundial no etanol a partir do milho. O Brasil consolidou sua experiência com a cana. Ao dominar industrialmente as duas rotas, o país passa a reunir escala agrícola, território, tecnologia, matriz elétrica renovável e conhecimento em combustíveis de baixo carbono.
Essa diversificação aumenta a segurança energética nacional. Quanto maior a oferta interna de etanol, menor a necessidade de importar gasolina ou elevar a dependência do petróleo em momentos de guerras, sanções, crises cambiais e instabilidade no Oriente Médio.
O Brasil também ganha capacidade para disputar os futuros mercados de combustível sustentável de aviação, transporte marítimo, biometanol e hidrogênio de baixo carbono. A EPE já trabalha com cenários até 2035 que consideram conjuntamente a oferta de etanol de cana e milho, a expansão das misturas na gasolina, a produção de bioeletricidade, biometano e combustíveis para aviação e navegação. EPE — Cenários 2026–2035.
A disputa mundial do século XXI não será somente pelo petróleo. Será também pelo controle das tecnologias, matérias-primas e certificações dos combustíveis de baixo carbono. Nesse cenário, o Brasil possui uma oportunidade que poucos países conseguem igualar.
O RISCO DE UMA EXPANSÃO SEM PLANEJAMENTO
Apesar das oportunidades, o avanço do milho não pode ser tratado como solução automática.
A rentabilidade das usinas depende do preço do grão, do petróleo, da gasolina, do gás natural, da biomassa utilizada na geração de calor e dos subprodutos. Uma instalação construída sob premissas excessivamente otimistas poderá enfrentar dificuldades se o milho subir ou se o etanol perder competitividade na bomba.
Também será necessário ampliar:
* ferrovias e sistemas de armazenagem;
* disponibilidade de biomassa e energia;
* certificação ambiental;
* controle da expansão agrícola;
* pesquisa de variedades mais produtivas;
* integração com pecuária e produção de biogás;
* estabilidade das políticas de biocombustíveis.
A industrialização não deve estimular desmatamento ou expansão desordenada sobre novas áreas. O caminho economicamente mais racional é aumentar a produtividade, aproveitar áreas já cultivadas e integrar a segunda safra de milho ao sistema soja-milho-pecuária-energia.
CONCLUSÃO: NÃO É A DERROTA DA CANA, MAS O FIM DE SUA SOLIDÃO
A entrada do milho na produção brasileira de etanol muda completamente o patamar do agronegócio. O grão passa a ter uma alternativa industrial capaz de sustentar preços regionais, agregar valor, gerar empregos e reduzir a dependência das exportações de matéria-prima.
Para a cana-de-açúcar, o novo cenário representa pressão competitiva, mas também estímulo à modernização. As usinas precisarão investir em produtividade, etanol de segunda geração, bioeletricidade, biometano, combustíveis sustentáveis e plantas flexíveis.
A tendência não é de substituição absoluta, mas de complementaridade competitiva: o milho oferecendo continuidade, armazenagem e expansão territorial; a cana oferecendo elevada eficiência energética, açúcar, bioeletricidade e melhor desempenho ambiental em muitas configurações.
A produção conjunta das duas matérias-primas torna o abastecimento mais estável e reduz a vulnerabilidade brasileira às oscilações do petróleo. Segundo a Conab, a primeira estimativa para 2026/2027 aponta 40,69 bilhões de litros de etanol no país, sendo 29,26 bilhões provenientes da cana, enquanto o milho continua crescendo e ampliando sua presença regional. Conab.
O futuro não será do milho contra a cana. Será dos grupos empresariais, produtores e países que souberem transformar agricultura, tecnologia e energia em uma única estratégia econômica.
Nesse novo mapa, o Brasil não precisa escolher entre ser uma potência agrícola ou energética. Pode ser as duas coisas — desde que pense em longo prazo e transforme sua abundância natural em poder industrial, tecnológico e geopolítico.