04/12/2012
Pular de galho em galho atrás de lucro pode dar
prejuízo.
Impostos e taxas corroem ganhos ao mudar carteira de
aplicações.
Na cartilha dos especialistas em finanças pessoais, uma
reavaliação na carteira de investimentos a cada seis
meses é sempre recomendável. Especialmente agora que
os juros básicos da economia estão no menor patamar
histórico — 7,25% ao ano — e devem continuar assim por
um longo período, reduzindo o retorno dos fundos de
renda fixa, os preferidos dos brasileiros. Mas os analistas
alertam: quem p**a de galho em galho pensando em obter
a melhor rentabilidade, no menor prazo possível, pode na
verdade ter prejuízo.
Isso porque mudar de aplicação embute custos, como o
pagamento do Imposto de Renda e das taxas de
administração cobradas pelos gestores de fundos. E quem
muda de forma apressada, sem pensar em seu objetivo
financeiro ou sem orientação correta, pode sair ou entrar
na hora errada de um investimento.
— Olhar as oportunidades que o mercado oferece é
importante, mas querer ganhar o máximo no menor prazo
possível pode trazer prejuízo em vez de lucro — adverte o
educador financeiro Mauro Calil.
A arquiteta paulista Sônia Andrade, de 46 anos, por
exemplo, transferiu, antes de o governo mudar as regras
de rentabilidade da poupança, em maio passado, os R$ 70
mil que tinha aplicado na caderneta de poupança para o
fundo Capital Performance Fix, do Itaú Unibanco, da
família dos multimercados, que busca “rentabilidade
superior à renda fixa”. Sônia foi em busca de um ganho
maior do que o 0,50% oferecido mensalmente pela antiga
poupança, correndo um pouco mais de risco.
Perda de quase um terço do ganho
Até outubro deste ano, o Capital Performance Fix ofereceu
uma rentabilidade de 7,81%. Na poupança, o ganho no
mesmo período é de 5,51%. Mas, se sacasse o dinheiro
do fundo hoje, Sônia pagaria 1% de taxa de
administração, mais 20% de Imposto de Renda. Retiraria
R$ 73.673 líquidos. Se tivesse deixado os recursos na
poupança, que é isenta de IR e não cobra taxa de
administração, teria em mãos R$ 73.857.
— Muita gente decidiu sair da poupança por causa da
mudança no cálculo da rentabilidade. Deixou a poupança
antiga em busca de uma rentabilidade maior nos fundos,
mas esqueceu das taxas que são cobradas por estes e
podem ter impacto negativo na rentabilidade. E a
poupança antiga, que paga 6,17% ao ano mais TR (Taxa
Referencial), continua sendo atraente — diz o consultor
financeiro e vice-presidente da Associação Nacional dos
Executivos de Finanças (Anefac), Miguel Ribeiro de
Oliveira.
O vice-presidente da Anefac lembra que o investidor que
migra da poupança para fundos de renda fixa
conservadores com taxa de administração superior a 2,5%
ao ano perde quase um terço do ganho bruto, antes da
cobrança de impostos, no atual cenário de Selic a 7,25%.
O consultor financeiro Reinaldo Domingos lembra de outro
erro comum por quem troca a poupança pelos títulos do
Tesouro Direto, sistema de venda de títulos públicos pela
internet. Ele observa que, atraídos pela rentabilidade
interessante alongo prazo, os investidores esquecem que
há incidência de IR nesses papéis. E muita gente compra
e vende os títulos a curto prazo. Domingos lembra que a
taxa de IR é de 22,5% para resgates feitos no prazo
inferior a seis meses. E quem espera mais de dois anos
para resgatar paga IR de 15% sobre os ganhos.
— Se o investidor vai precisar do dinheiro a curto prazo
para comprar uma televisão, por exemplo, não faz sentido
comprar um título de longo prazo, como os do Tesouro
Direto. Há uma diferença de 7,5% entre a maior e a menor
alíquota do IR, e quem saca antes paga mais imposto. É
melhor deixar na poupança, que rende menos, mas é
isenta do IR. E, quando se vende o título antes do fim do
prazo, a rentabilidade auferida é apenas aquela referente
ao período da aplicação. No caso de títulos prefixados,
pode até haver prejuízo na venda — diz Domingos.
Conhecer objetivos financeiros é importante
Para evitar erros assim, alerta o consultor, o investidor
precisa saber quais são seus objetivos financeiros:
comprar um carro novo, viajar ou guardar para a
aposentadoria antes de trocar de investimento. Calil
observa que quem compra títulos, como por exemplo as
Notas do Tesouro Nacional (NTN-B), que pagam juros
reais mais inflação, deve pensar em objetivos com prazo
mais longo, como a compra da casa.
Calil lembra que, desde que a taxa Selic começou a cair,
em agosto do ano passado, muitos pequenos investidores
têm sido atraídos para a Bolsa com a promessa de ganhos
elevados com determinadas ações. Os papéis da
Petrobras, por exemplo, costumam ser oferecidos como
sinônimo de ganho certo. No ano, porém, eles estão estão
em queda. Até a última sexta-feira, os papéis PN caíram
cerca de 15% no ano. Já o Ibovespa, índice de referência,
avança 1,27%.
— Ou seja, quem foi buscar lucro em um ano na Petrobras
teve prejuízo. Bolsa de Valores nunca é investimento de
curto prazo para o pequeno investidor — afirma Calil.
Além disso, segundo Flavio Lemos, coordenador da
Trader Brasil Escola de Investidores, fez um cálculo que
mostra como a cobrança da taxa de corretagem pode
resultar em perdas para o investidor. Uma ordem de
corretagem numa operação feita pelo homebroker custa
R$ 15.
— Se eu comprar cem ações da Ambev por R$ 82 e
vendê-las por R$ 83, utilizando a tabela de corretagem da
Bovespa, pagarei R$ 66. O ganho com a valorização da
ação se transforma num prejuízo de 0,4% com essa taxa.
Para empatar, a ação teria que subir 1,6% — diz Lemos.
Fonte: O Globo (03/12/2012).