11/02/2025
Eu tinha medo de avião. E escrevi muita crônica por conta desse medo de avião. Bastava entrar no voo e me punha a escrever sobre a vontade de pedir socorro e de deitar no colo do desconhecido da poltrona ao lado; sobre a vida que passava como um filme na minha cabeça quando ouvia um barulho estranho e jurava que era falha irremediável na turbina.
Mas eu tive que viajar muito de avião, nos últimos anos. E fui acostumando. Ao invés de suar frio e pedir o co***lo aos desconhecidos, passei a ligar o computador e trabalhar. Ao invés de rezar ave marias com os barulhos estranhos da turbina, passei a ouvir música e cochilar. Ao invés de olhar ao redor para ver se alguém estava sem oxigênio, passei a comer biscoito de polvilho e balinha de gelatina.
É bom, por um lado, não sentir mais medo. Mas não sei o quanto é bom se acostumar assim. Fazia muito tempo que eu não escrevia crônica enquanto voava. Porque o costume faz isso com a gente: deixa a gente menos atento. Com menos vontade de agarrar a mão do desconhecido ao lado. Com menos inspiração para repensar nossa vida, que pode acabar ali, a sei lá quantos mil metros de altitude.
Por isso, hoje, quando o piloto inclinou o avião um pouco mais do que precisava, eu lembrei com certa saudade desse medo. E decidi que tudo bem me atracar num biscoito de polvilho ao invés de me ocupar rezando trinta ave marias. Mas que eu posso fazer isso deitada no colo da desconhecida da poltrona ao lado, que, aliás, parece estar bem mais calma e com bem mais oxigênio do que eu.