13/12/2024
"Cabeça baixa é uma prática, quase, obrigatória na prisão. Se levantar a cabeça, diante do policial penal, corre o risco de levar um pescoção. Parece simbólico mas não é: andar de cabeça erguida depois do crime é uma afronta. Talvez seja essa a lógica que permeia a prisão, afinal, cabeça erguida pode ser confundida com dignidade. Isso, pra eles, é um problema.
Alguns recorrem para o argumento da segurança. Em nome da segurança, uma série de medidas são tomadas e direitos são tolhidos. Esse treco de segurança, é uma praga. No caso da cabeça erguida tem relação de olhar e marcar o rosto do inspetor: "Tá me olhando? Tá querendo gravar minha cara pra cobrar na rua?" - dizem alguns. Isso é tão infundado... Na hora do confere (contagem dos presos na cela) se levantar a cabeça, dá um problemão.
Como é difícil andar de cabeça erguida depois da prisão. Nem se trata de um corpo docilizado e domesticado. É um corpo traumatizado, com complexo de frango, que não olha pra cima nem pra beber água. Diriam alguns: "é quando o Ganso vira frango", revelando a proposta de transformar o ladrão da pista num subjugado de galeria. Retributivo, vingativo, hostil e covarde.
Isso se internaliza entre presos. Se no pátio de visita o preso f**ar de cabeça erguida por muito tempo, salvo se não mantiver o olhar fixo para seu visitante, de imediato será visto com desconfiança pelos seus pares. O preso também tem desconfiança do colega preso que mantém a cabeça erguida no pátio visita. Pode estar olhando para a esposa de alguém. Internalizou a prática e se infectou com as neuroses da cadeia.
Quando sai da cadeia, f**a com receios. Teme levantar a cabeça e ser reconhecido por alguém. Na rua, para não ser flagrado pela tecnologia de reconhecimento facial, e sofrer um ataque num Mandado de Prisão que não foi dado baixa, ele teme erguer a cabeça.
Levantar a cabeça, intra e extramuros é um exercício de resistência, desobediência, autoestima, superação e vida. De cabeça baixa, às vezes, parece que o sujeito está morto. E, é assim que tem que ser. Para viver num tempo futuro, viver morto é sobrevivência. Isso vale pra uma chacina ou num massacre institucional, que é a prisão."