14/07/2024
Mas afinal: “as mulheres estão loucas atrás de homem”?
A frase acima, entre aspas: “as mulheres estão loucas atrás de homem”, é de um ancião da justiça, expressada dentro de um tribunal, no julgamento de um caso que envolvia uma criança: menina de doze anos vítima de assédio de professor, dentro da escola, tornou-se o centro de atenções da sociedade e de várias indagações: preconceito, opinião infeliz, visão arcaica ...?
Ancião no antigo testamento é significado de autoridade, com direito a reverência e a respeito. Já o autor da frase proferida em linguagem chula trata-se de desembargador que julga na mais alta corte da justiça estadual a revisão de sentenças e de recursos de casos sobre família, criança, infância e juventude, entre outros.
O caso moveu a imprensa, a opinião pública local, nacional e internacional. O ápice aconteceu na quarta-feira – dia 10.03.2024, quando a câmara cível foi palco de uma sessão de desagravo: a sociedade civil organizada de maneira eloquente disse por que “as mulheres não estão loucas atrás de homem”. Fizeram coro: a OAB estadual e federal, o Ministério Público, o próprio Tribunal de Justiça do Paraná e o IBDFAM, entre outros.
Mas afinal o que leva um ancião da justiça a pensar que: – as mulheres estão loucas atrás de homem. A análise destas entrelinhas pede a retirada das togas, becas, ternos, gravatas, vestidos e acessórios da moda social e, ainda, do juridiquês.
Seria o magistrado um leitor voraz dos contos de Nelson Rodrigues – escritor da década de 60: “A vida como ela é”, coletânea de cem contos nos quais a mulher representa personagens diversas, como o tipo frágil, ar de menina, de Lucília, retratada nos contos “O Inferno” e “Histórias de Amor”.
Ou, então, seria um leitor do livro “A Polaquinha” e dos contos eróticos, policiais e trágicos do curitibano Dalton Trevisan? Ela – polaquinha – envolveu-se em romances com diversos homens, sofreu os preconceitos do machismo, abusos físicos e psicológicos, entre outros. Mas a sua loucura tinha interesses obscuros.
As obras acima afastam-se do olhar sedutor, dominante e marcante das mulheres personagens de Machado de Assis: Helena e Capitu, entre outras, na visão da sociedade patriarcal oitocentista machadiana.
Talvez com a inspiração de vídeos do mundo digital - atualíssimo TikTok, entre outros, o ancião da justiça disse que a causa da corrida feminina atrás do s**o oposto seria uma questão de gênero, palavra não citada - mas que apareceu com outra infeliz opinião exposta na sessão de 3 de julho de 2024, que aponta para ‘a falta de homens no mercado’:
– “quem está correndo atrás de homens são as mulheres, porque não tem homem, sabe? Esse mercado é um mercado que está bem diferente. Hoje em dia sabe o que o que existe, essa é a realidade as mulheres estão loucas atrás dos homens, porque são muito poucos sabe? Esse é o mercado”, profetizou de maneira inversa o magistrado na sessão de julgamento de casos de família, infância e juventude.
A opinião preconceituosa não representa a mulher do século XXI, não representa o homem do século XXI, não representa a sociedade atual, porque as mulheres não estão loucas atrás de homem, mas a cada dia com mais autoridade e influência na sociedade, ficando em plano secundário as questões de s**o, beleza e sensualidade.
Contudo, a opinião pessoal do magistrado aponta que embora não seja a tônica da atuação da justiça no país, o poder judiciário pode estudar o comportamento psicológico de magistrados que não compreendem a evolução social ao longo do tempo, como a ascensão social das mulheres, para não contaminar de preconceito com visão negativa a solução judicial de fatos sociais.
João Natal Bertotti é advogado e jornalista, especialista em Ciência Política e em Direito e Processo Previdenciário, e Ouvidor-Geral da Subseção de Colombo – Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Seccional Paraná.