21/04/2025
“A justiça de Deus revelou-se na cruz”
De tudo o que o Papa Francisco fala e escreve, o que mais me fascina e ao mesmo tempo me deixa curioso e com dúvidas é quando ele trata da misericórdia de Deus.
Há algum tempo, quando li o Auto da Compadecida, de Ar**no Suassuna, me chamou atenção o trecho em que o Encourado (diabo) diz que apela para a justiça, sendo de imediato respondido por João Grilo: “e eu para a misericórdia”. O padre logo o diz que ali justiça e misericórdia não eram conceitos separados e que o julgamento justo seria, então, misericordioso. Na advertência pessimista do padre amedrontado, a condenação pela justiça anularia qualquer misericórdia. Manoel (Jesus), entretanto, diante dos apelos da Compadecida, acaba acomodando a todos da melhor maneira possível, atendendo ao pedido que se repete a cada missa: “não olheis os nossos pecados, mas a fé que anima a vossa igreja”.
Agora, lendo “O amor é contagioso”, deparo-me com mais esta frase do Santo Padre (a da epígrafe). Pensei em quantas vezes nos pegamos afirmando que a justiça humana é falha, mas a divina não é, que um dia será feita a justiça de Deus àqueles a que a justiça humana não atinge.
É curioso, porém, notar que em verdade nós aguardamos uma justiça de Deus baseada na nossa, que é completamente vazia de misericórdia. Talvez se pudéssemos ter acesso agora aos julgamentos de Deus nos portaríamos com a indignação do irmão do filho pródigo. Talvez maldisséssemos Nossa Senhora como faz o Encourado de Suassuna.
Que justiça é essa que se revela na cruz?! Se aquela é a justiça divina, há espaço para condenar?! Se o diabo é o acusador (Zacarias 3,1 e Apocalipse 12, 10) e ele é o oposto do próprio Deus, como pode ter seus pleitos atendidos? Enfim, quando as dúvidas começam, inevitavelmente, como agora comigo, tentamos encaixar uma lógica da nossa justiça nesse processo que para nós é, em verdade, um mistério.
(Continua nos comentários)