27/09/2026
O texto é longo, mas convém ler até o final.
O HOMEM EM SOCIEDADE: QUANDO O MEDO SUBSTITUI A CONVIVÊNCIA
Há uma transformação silenciosa acontecendo nas relações humanas.
Não se trata apenas de uma disputa entre homens e mulheres. Tampouco pode ser reduzida à velha oposição entre conservadores e progressistas, machistas e feministas, direita e esquerda.
O fenômeno é mais profundo:
O indivíduo contemporâneo começa a perceber a própria convivência social como uma zona potencial de risco.
Durante séculos, o ser humano compreendeu que precisava do outro para existir. Família, amizade, casamento, vizinhança, trabalho, comunidade e vida pública constituíam espaços naturais de interação.
Hoje, entretanto, cresce uma sensação inversa:
A de que cada aproximação pode produzir uma consequência jurídica, social ou reputacional imprevisível.
E quando o indivíduo passa a enxergar o outro não como semelhante, mas como potencial acusador, adversário ou ameaça, nasce uma consequência inevitável:
O afastamento.
A sociedade da desconfiança
A divisão social contemporânea não nasceu exclusivamente das leis. As leis são, em grande medida, reflexo de uma transformação cultural mais ampla.
O ativismo político, as redes sociais, a polarização, a exposição permanente da vida privada e a judicialização dos conflitos produziram uma sociedade na qual as relações humanas passaram a ser constantemente interpretadas sob categorias de poder.
Homem e mulher já não são apenas duas pessoas que se encontram.
Podem ser vistos como integrantes de grupos sociais diferentes, portadores de experiências históricas diferentes e, em determinados discursos, colocados em posições estruturalmente antagônicas.
Essa transformação possui uma justificativa legítima quando pretende proteger quem efetivamente sofre violência.
O problema começa quando a proteção jurídica deixa de ser percebida como instrumento de justiça e passa a ser percebida como possibilidade permanente de conflito.
E aqui existe uma distinção fundamental.
Proteger a mulher contra a violência é uma necessidade civilizatória.
Transformar todo homem em potencial agressor é outra coisa.
Da mesma forma, combater a violência contra a mulher não significa presumir que toda acusação contra um homem seja verdadeira.
Uma sociedade madura deveria ser capaz de sustentar simultaneamente duas afirmações:
A mulher precisa ser protegida contra a violência;
O homem precisa ser protegido contra a injustiça.
Uma coisa não elimina a outra.
O novo separatismo
É nesse ponto que surge aquilo que poderíamos chamar de separatismo preventivo.
Não é necessariamente um separatismo imposto pelo Estado.
É um separatismo produzido pelo próprio indivíduo.
O homem que começa a pensar:
"É melhor não me envolver."
"É melhor não oferecer ajuda."
"É melhor não iniciar um relacionamento."
"É melhor não frequentar determinados ambientes."
"É melhor não discutir."
"É melhor manter distância."
"É melhor não criar intimidade."
Esse homem não está necessariamente se rebelando contra as mulheres.
Ele pode simplesmente estar tentando reduzir riscos.
E essa diferença é extremamente importante.
Porque uma sociedade pode chegar a um estágio em que ninguém mais odeia ninguém, mas ninguém mais confia em ninguém.
E uma sociedade sem confiança pode permanecer juridicamente organizada, mas começa a perder aquilo que a torna verdadeiramente humana.
As relações de trabalho e a amizade escassa.
Esse fenômeno já ultrapassa as relações afetivas e começa a alcançar, inclusive, o ambiente profissional.
Em determinados setores, surge entre empregadores o receio de contratar mulheres para determinadas funções, não por incapacidade ou preconceito, mas pelo temor de conflitos, acusações ou passivos jurídicos decorrentes de situações mal interpretadas ou exploradas de má-fé.
Da mesma forma, entre os próprios trabalhadores, a espontaneidade das relações vem sendo substituída por uma espécie de cautela permanente:
A conversa descontraída, a brincadeira, a proximidade e até mesmo a amizade entre homens e mulheres já não possuem, em alguns ambientes, a mesma naturalidade de outrora.
É uma consequência paradoxal do ativismo contemporâneo:
Quando a proteção deixa de ser percebida apenas como garantia contra a violência e passa a ser percebida como possibilidade permanente de risco, o indivíduo excessivamente protegido pode acabar sendo socialmente percebido como um risco em si mesmo.
E, quando isso acontece, a proteção que deveria aproximar as pessoas pode começar, involuntariamente, a separá-las.
O paradoxo da proteção
Há aqui um paradoxo particularmente interessante.
Quanto maior a percepção social de risco nas relações entre homens e mulheres, maior pode ser a necessidade de mecanismos jurídicos de proteção.
Mas, simultaneamente, quanto maior a percepção de risco jurídico nas relações pessoais, maior pode ser a tendência de determinados indivíduos a evitar essas relações.
Assim, aquilo que nasceu para proteger a convivência pode, em determinadas circunstâncias, produzir também uma cultura de precaução excessiva.
O Direito precisa proteger.
Mas o Direito não pode ser transformado em substituto da confiança humana.
Porque nenhuma sociedade consegue funcionar somente mediante normas, protocolos, registros, testemunhas, câmeras e provas.
Existe uma dimensão pré-jurídica da existência humana que depende de algo muito mais simples:
Confiança.
O medo da má-fé
O problema se torna ainda mais complexo quando surge o medo da má-fé.
O indivíduo não teme apenas cometer um erro.
Ele teme ser interpretado de maneira maliciosa.
Teme uma acusação maliciosa.
Teme uma narrativa pré-constituida
Teme que uma discussão privada seja transformada em denúncia pública.
Teme que uma relação terminada seja posteriormente reinterpretada à luz de acontecimentos que ninguém imaginava quando a relação começou.
E esse medo produz um comportamento racional:
Reduzir a exposição.
O homem começa a calcular aquilo que anteriormente fazia espontaneamente.
"Posso dizer isso?"
"Posso fazer aquilo?"
"Posso ajudar?"
"Posso abraçar?"
"Posso convidar?"
"Posso insistir uma segunda vez?"
"Posso discordar?"
"Posso terminar?"
Quando a espontaneidade precisa ser permanentemente submetida a uma análise de risco, a relação humana deixa de ser espontânea.
Ela passa a ser quase contratual.
O homem que se retira
Talvez esteja surgindo, silenciosamente, um novo tipo de homem.
Não é necessariamente o homem agressivo.
Não é necessariamente o homem machista.
Não é necessariamente o homem ressentido.
É o homem retraído!
Ele trabalha.
Cuida de sua vida.
Mantém seu círculo social reduzido.
Evita discussões.
Evita determinados relacionamentos.
Evita ambientes que considera juridicamente perigosos.
Prefere a própria companhia.
E, quando questionado sobre sua solidão, responde:
"É mais seguro assim."
Essa frase deveria provocar reflexão.
Porque o isolamento voluntário pode parecer liberdade, mas também pode ser uma forma silenciosa de derrota social.
O ser humano nasceu para a convivência.
Aristóteles o definiu como animal político, isto é, um ser cuja realização depende da vida em comunidade.
Quando o medo passa a determinar quem podemos conhecer, amar, ajudar ou confrontar, alguma coisa fundamental começa a se perder.
A divisão entre homens e mulheres
O problema não está em reconhecer diferenças.
Homens e mulheres são iguais socialmente, mas possuem experiências sociais distintas.
Há desigualdades históricas que justificaram e ainda justificam políticas específicas de proteção.
O problema está em transformar a diferença em antagonismo.
Quando o discurso social passa a ensinar que homens e mulheres são essencialmente grupos adversários, a consequência natural é a desconfiança.
E quando a desconfiança se torna cultural, o relacionamento deixa de ser encontro e passa a ser negociação.
O homem passa a enxergar a mulher com cautela.
A mulher passa a enxergar o homem com cautela.
Ambos começam a interpretar determinadas situações sob a lógica do risco.
E aquilo que deveria ser uma aproximação entre duas pessoas transforma-se em aproximação entre dois representantes de grupos.
É o triunfo da identidade sobre a individualidade.
O Direito e seus limites
O Direito, entretanto, não pode ignorar o fenômeno da violência.
A ampliação recente da proteção jurídica à mulher demonstra exatamente isso.
O STF, ao julgar o Tema 1.412, reconheceu que a violência baseada no gênero pode ocorrer fora das relações domésticas, familiares ou afetivas.
Essa evolução possui uma lógica protetiva clara.
Mas justamente porque o Direito está avançando para novas fronteiras de proteção, torna-se ainda mais importante preservar os fundamentos de qualquer Estado de Direito:
Prova, contraditório, defesa, proporcionalidade, individualização da conduta e responsabilização de quem efetivamente praticou o ilícito.
A proteção da vítima não pode significar a desproteção do inocente.
E a defesa do inocente não pode significar a desproteção da vítima.
A verdadeira justiça exige as duas coisas.
O ativismo e a reação
Todo movimento social produz, em algum momento, uma reação.
Quando uma determinada pauta cresce e conquista espaço institucional, aqueles que se sentem atingidos por suas consequências começam a reagir. (Ação e reação).
Essa reação pode assumir diversas formas.
Pode produzir debate legítimo.
Pode produzir crítica.
Pode produzir movimentos políticos.
Pode produzir radicalização.
E pode produzir silêncio.
O silêncio talvez seja o mais difícil de perceber.
Porque aquele que grita contra uma mudança ainda participa do debate.
Aquele que simplesmente abandona o debate desaparece dele.
E talvez estejamos diante de uma geração de homens que, em vez de confrontar determinadas transformações sociais, simplesmente estejam escolhendo não participar.
Não por ódio.
Mas por prudência.
Não por hostilidade.
Mas por autopreservação.
Não porque tenha deixado de desejar companhia.
Mas porque passou a considerar o custo potencial da intimidade elevado demais.
A sociedade do isolamento
Esse fenômeno não diz respeito apenas aos homens.
É uma tendência contemporânea mais ampla.
O indivíduo moderno está cada vez mais protegido contra o outro e, paradoxalmente, cada vez mais distante do outro.
A tecnologia permite conversar sem encontrar.
As redes sociais permitem conhecer sem conviver.
Os aplicativos permitem relacionar-se sem comprometer-se.
O Direito permite estabelecer limites cada vez mais precisos. E isso pode não ser saudável.
E o medo permite estabelecer limites ainda maiores.
O resultado pode ser uma sociedade extraordinariamente conectada e profundamente solitária.
Nunca tivemos tantos meios de comunicação.
E talvez nunca tenhamos sido tão cuidadosos para não nos envolver verdadeiramente.
O verdadeiro problema
O verdadeiro problema, portanto, não é a proteção da mulher.
Também não é a defesa do homem.
O verdadeiro problema é a transformação da relação humana em relação de suspeita.
Uma civilização que precisa ensinar permanentemente seus indivíduos a desconfiar uns dos outros corre o risco de produzir exatamente aquilo que pretendia evitar.
Porque a lei pode impedir uma agressão.
Pode punir um criminoso.
Pode afastar um agressor.
Pode proteger uma vítima.
Mas a lei não consegue fabricar amizade, respeito ou consideração.
Não consegue fabricar amor.
Não consegue fabricar confiança.
E não consegue obrigar duas pessoas a acreditarem uma na outra.
O destino do homem em sociedade
Talvez a pergunta mais importante seja esta:
Que tipo de homem a sociedade contemporânea está produzindo?
Um homem mais consciente de seus deveres?
Isso seria positivo.
Um homem mais respeitoso?
Melhor ainda.
Um homem mais cuidadoso com seus atos?
Talvez, e eu diria mais cauteloso com sua própria segurança.
Mas, se produzirmos um homem que teme relacionar-se, teme ajudar, teme aproximar-se, teme falar, teme discordar e, finalmente, teme viver espontaneamente, teremos criado, talvez, uma sociedade juridicamente mais protegida, porém humanamente mais pobre.
O desafio do século XXI talvez não seja apenas construir mecanismos para impedir que o homem agrida a mulher.
Talvez seja também descobrir como impedir que homens e mulheres deixem de confiar uns nos outros.
Porque uma sociedade não morre somente quando seus indivíduos passam a se agredir.
Ela também começa a morrer quando seus indivíduos passam a acreditar que é mais seguro viver separados.
O separatismo pode começar como prudência.
E pode transformar-se em hábito.
E assim terminar como cultura.
O homem (ser humano) então permanece livre, protegido, informado e juridicamente consciente.
Mas sozinho.
E talvez essa seja uma das maiores contradições da modernidade:
Construímos cada vez mais mecanismos (leis) para proteger o indivíduo do outro, enquanto lentamente esquecemos que o ser humano somente se realiza plenamente na presença do outro.
A civilização precisa, portanto, encontrar um ponto de equilíbrio.
Nem a ingenuidade que ignora a violência.
Nem a paranoia que transforma todo encontro em ameaça.
Nem a impunidade.
Nem a presunção de culpa que já derrotou a presunção de inocência.
Nem a guerra entre homens e mulheres.
Precisamos novamente aprender a distinguir o agressor do homem, a vítima da acusação, o conflito da violência e a proteção da presunção.
Porque, se não conseguirmos fazer essas distinções, o próximo grande movimento social talvez não seja uma revolução, talvez seja simplesmente o silêncio!
Homens e mulheres fechando suas portas, reduzindo seus círculos, evitando uns aos outros e chamando isso de liberdade.
E uma sociedade em que ninguém se aproxima de ninguém pode ser perfeitamente segura.
Mas dificilmente poderá continuar sendo verdadeiramente humana.
Dr. André Luiz
Advogado