03/05/2021
Corria os idos de 1999/2000 e estava em pleno cumprimento de sentença em regime fechado. Muito jovem e já enfrentava uma difícil e marcante fase em minha vida. Estava recluso em uma casa de detenção gerenciada pela Polícia Civil de Minas Gerais, pois essa, detinha a incumbência de guarda de presos à época.
A detenção como na maioria do restante do Brasil naquele período, ao estilo do Carandiru, onde presos ficavam dentro de pavilhões/galerias/alas, e somente eram recolhidos nas celas no período noturno. A cadeia se igualava a “terra de ninguém”, que prevalecia a lei da selva, já que todo tipo de conflito era resolvido por nós presos, e não invariavelmente, por meio da violência, coação e covardia...
Não posso dizer que hoje o sistema prisional melhorou, mas antes, o Estado evocou para si a tutela da violência, coação e covardia, apenas institucionalizou o emprego da força.
Entretanto, não é pra apontar as mazelas prisionais que me pus a escrever essa crônica da vida real, mas para trazer à baila, uma injustiça, e quem sabe, provocar uma reflexão.
Voltando a 1999, dividi a carceragem com um preso carrancudo, triste e de poucas palavras, tinha o olhar melancólico e tinha o nome Eugênio Fiúza.
A vida de Eugênio no cárcere não demostrava fácil, já que este estava cumprindo uma longa pena por crimes contra liberdade sexual, ou seja, ESTUPRO, ele era conhecido pela alcunha de “maníaco da zona Sul” que aterrorizou a Zona Sul de Belo Horizonte na década de 80... Eugênio sempre jurou inocência, mas poucos acreditavam em seu clamor...
Aos desavisados, informo que tal delito não é aceito pela massa carcerária, e para estes é reservado o desprezo, a infâmia, e até a morte no cumprimento de sentença. Não era diferente para Eugênio, que volta e meia tinha que “desenrolar” (dar explicação) sua “capivara” (crimes pelo qual respondia), pra geral.
Eugênio se postava um homem troncudo, forte e destemido, encarava de peito aberto qualquer tipo contenda, e nunca o vi fugir quando colocavam em dúvida se ele era ou não “jack”, “duzentão” (estuprador), era valente, e se preciso fosse, trocava socos, e golpes de “chucho” (faca improvisada) para fazer valer a sua tese de inocência, não foi poucas vezes que vi o Fiúza ferir e ser ferido nos embates no banho de sol.
Aquele homem triste e sofrido ganhou minha admiração pela valentia, e ficamos Amigos, e como escrevia “petições” aos Juízes e cartas para as famílias daqueles que pediam, não foi diferente com Eugênio, contudo, nunca escrevi uma carta sequer para sua família, pois essa o tinha abandonado. Os pedidos de Eugênio Fiúza eram sempre direcionados aos Magistrados, Promotores e impressa, onde o enredo era sempre o mesmo, o clamor pela inocência.
Enquanto estive preso com esse brasileiro, jamais obtivemos resposta à suplica de um julgamento justo, jamais!
O tempo passou, e quis o destino que seguíssemos rumos diferentes no cárcere, ele foi transferido para um presidio de segurança máxima, e eu segui para outros rumos.
Já em regime prisional menos gravoso (semiaberto), e cursando a graduação em Direito, tomei conhecimento pela TV que o caso do “maníaco da zona sul” tinha ganhado outro desfecho, e por um acaso do destino, o verdadeiro autor dos estupros tinha sido capturado, e com essa reviravolta, não somente Eugenio tinha sido colocado em liberdade, mas também um outro sentenciado que cumpria pena pelos mesmos delitos cometidos pelo verdadeiro maníaco...
Ao tomar conhecimento dessa reviravolta inusitada e rara no judiciário, senti um misto de alegria e tristeza, fiquei feliz com a confirmação daquilo que sempre foi bradado por Eugênio, sua INOCÊNCIA, giro outro, senti o amargo gosto de perceber a injustiça que esse homem passou nos longos anos que lutou pela vida no cárcere.
Reencontramos pouco tempo depois do reconhecimento de sua inocência, foi um encontro emocionante, onde eu já era Advogado e aquele homem que outrora era robusto, carregava no envelhecimento precoce, marca dos longos anos de prisão, tinha envelhecido... Ganhei um quadro pintado pelo inocente Eugênio, e que por ironia, é a Deusa da justiça Themis, que adorna meu escritório na as de recepção.
Voltamos a manter contato, e nessa semana, onde a (in) Justiça reconheceu uma indenização de 2 milhões a Eugênio pelos 18 anos que ficou preso sem ser culpado, recebi uma ligação de meu Amigo, que com a voz debilitada, e como se justificasse, falou: “Greg, eu sou inocente! ”
Sim Eugênio Fiúza, você é inocente.
Greg Andrade, Belo Horizonte, Outono de 2021.