08/07/2020
Em memória do grande amigo... Homenagem à Aristoteles Dutra de Araújo Atheniense!
Aristoteles
Os abraços da família e os dos amigos são invenções de Deus. Reconfortam, regeneram, costumam curar. Acontece que a família, às vezes, chateia; o verdadeiro amigo, nunca. Deve ser a razão de, não raro, a morte do amigo doer mais que a de parentes próximos.
A “subida” de Aristóteles foi, segundo a língua culta, aprendida na prosa do bar mais sagrado, uma sa*****em. O homem que cultuava, com respeito e carinho, todos os velórios, teve que morrer sem velório nem missa. O “corona”, com nome de nobreza, foi de absoluta solércia, falta de caráter, foi de rudeza de analfabetos, sacrilégio de ímpios. Tanto canalha, vivendo até noventa, e o meu amigo Aristóteles Dutra de Araújo Atheniense, um santo, indo embora, levando exemplos de cordialidade, cultura, competência, bravura e braveza, dignidade e civismo. Advogado, jurista, professor, acadêmico, jornalista, principalmente AMIGO.
Estive, com Aristóteles, em muitas batalhas. Honrou-me até, prefaciando-me um livro. Honra e responsabilidade. Alegria e sofrimento. Juntos, demos um jeito de Calambau voltar a ser Presidente Bernardes. Juntos bradamos e marchamos por diretas já. Estive tantas vezes a seu lado nas tribunas e cancelos, mas, com a Graça de Deus, nunca o enfrentei em 60 anos de profissão diária. Em assentos diversos, estivemos ao lado em dezenas de arbitragens, na CAMARB e na CAMINAS. Na OAB e no Instituto dos Advogados. Na Federação Mineira de Futebol. No outro Instituto, o Histórico e Geográfico.
Era, como eu, ele sem malícia alguma, contador de casos, com as necessárias e virtuosas mentiras de praxe. Comemoramos solidários, tantas vezes em sua casa, vitórias do AMÉRICA, e algumas tantas da seleção brasileira.
Por causa do América, apanhamos juntos, que eu me lembre, na Praia do Ó, Sabará, também em Sete Lagoas, uma vez nas ladeiras de Nova Lima. Pelo América, era um desaforado. Um dia, em Juiz de Fora, o Coelho perdia de 1x0 do Tupi e era FIM DE JOGO. Em volta, gozavam nossa cara Aristóteles, suado e pálido de tristeza, amargara o pressentimento de volta sem glória quando, acho que foi Amauri Horta, meteu dois gols de cabeça. Ganhamos. Tote arrumou e arregimentou a turma dos malucos verdes, o somatório das kombis, e fomos fazer passeata de contra gozação, na Halfed, 11 horas da noite. Bebemos nos cafés ainda abertos, mais chope que café, comemos pão de queijo com Itamar ainda jantando, tudo mais ou menos por aquelas esquinas, onde, muitos anos depois, Bolsonaro ganhou a facada que o elegeu. Ninguém entendia nada; lá, na Manchester não são muito de futebol, nem a torcida do América é muito de tamanho. Deu pra divertir, não houve os sopapos com os quais tínhamos convivência e memórias de olho roxo.
Finalmente, acho que Aristóteles me ensinou a morrer. Poucos meses atrás, com ele e por convite dele, estávamos em Piranga. Queria visitar as terra de adoção, suas esquinas de juventude, seu Jubileu. Senti uma coisa, bela e esquisita, cheirando a despedida. Entre Rio Novo, berço de família e Piranga, berço de amigos, preferiu visitar a primeira comarca do Pai, a quem honrou, de braços dados, toda a vida. Sou de Belzonte, mas passei anos maravilhosos da juventude na Pedro Leopoldo de meu Tio Levy Teixeira. Um dia destes volto para dar voltinhas pela Comendador Antônio Alves, pelas Fazendas de Agenor, pai de Levy. Sou invejoso do amigo. Também tenho esquinas para recordar.
Luiz Ricardo Gomes Ar**ha