05/06/2026
A sugestão de leitura dessa semana é um clássico da literatura brasileira. Quem me acompanha por aqui sabe que literatura e direito fazem parte da minha vida e da minha história como professor de Direito Penal e de Literatura.
Por isso eu sempre digo que me casei com o Direito e tenho a literatura como amante.
Publicado em 1899, Dom Casmurro, de Machado de Assis, nos traz o relato em primeira pessoa de Bento Santiago, o Bentinho. Já envelhecido e amargurado — apelidado de Dom Casmurro —, ele reconta a sua história de amor da juventude com Capitu, a famosa personagem de “olhos de ressaca, de cigana oblíqua e dissimulada”.
A grande força da narrativa não está no enredo em si, mas na maneira magistral como é contado por um dos maiores e mais sarcásticos escritores da literatura universal. Como o narrador é o próprio Bentinho, nós enxergamos toda a história sob a lente do seu ciumento obsessivo e desvairado.
Para quem é do Direito, essa obra tem um sabor ainda mais especial: é uma tradição nas faculdades de Direito a realização do Júri Simulado de Capitu. Professores de Direito Penal e Processo Penal costumam dividir as turmas entre acusação e defesa para responder à pergunta que assombra a literatura brasileira há mais de um século: Capitu traiu ou não traiu Bentinho?
Como advogado criminalista e professor, sempre vi nessa dinâmica uma riqueza pedagógica fantástica. O caso de Capitu é o cenário perfeito para exercitar os pilares do nosso ordenamento jurídico.
O livro inteiro é, essencialmente, a peça de acusação de Bentinho. Ele apresenta indícios, reconta conversas e interpreta olhares para construir a culpa de Capitu. Assim, diante de uma narrativa unilateral e parcial, as provas são puramente circunstanciais.
Em um julgamento técnico, baseado estritamente nas “provas” apresentadas pelo memorial de Bentinho, você votaria pela condenação ou pela absolvição?
F**a aqui a minha recomendação de leitura dessa semana.
Até a próxima! 👋🏻
Desconfiem do narrador, analisem os fatos com olhos de juristas e apreciem a genialidade de Machado.