09/08/2018
Opinião em forma de carta, de autoria do nosso Sócio-Fundador João Lucas Saldanha sobre a atual conjuntura política do Brasil.
AO MESTRE COM TRISTEZA
[por João Lucas Vieira Saldanha]
Querido professor, venho pedir socorro. Eles estão por todos os lados.
São Generais de Reserva e Chefes de Guerrilha, Cristos e Anticristos, Oligarcas e Quadrilheiros, Intelectuais Desalmados e Desletrados Emotivos; é, enfim, a mais vasta gama de parasitas devoradores de oportunidade que você pode querer.
Digno de todo um filo biológico próprio, esse rol de candidatos alimenta-se do momento e da ira. Nutrem-se das nossas revoltas, insatisfações e frustrações. Mas é nos nossos sonhos que eles se deleitam. O resto é só dieta. Nossos sonhos são a sobremesa.
Eles que nos poupem de suas "mitagens" e "lacrações", essa prosa conveniente, rimada e odiosa. Somos irmãos e inimigos digladiando sangue dos outros, opinando sobre liberdades que não nos pertencem, violando direitos alheios. O porquê de ainda ostentarmos bandeiras estranhas, fascistas e populistas, foge à noção de instrução histórica. Será que não estudamos o bastante? Será que as provas foram fáceis demais?
Professor Marcelo Sampaio, um dos meus mais queridos mestres, talvez a quem eu mais deva agradecer (ou culpar) por seguir o caminho das ciências humanas, pode me dizer se toda essa gente foi mesmo aprovada? Ainda dá tempo de nos dar bomba? Se der, por favor, sinta-se à vontade.
Mestre, meus colegas não sabem que as mesmas bandeiras são fascistas E populistas, não sabem que são conceitos aliados. Talvez o senhor não tenha sido enfático o bastante quanto ao tema, ou, quem sabe, talvez fora enfático demais, parte dessa sua grande doutrinação ideológica. Não é essa a expressão da vez? Doutrinação Ideológica?
Afinal, acreditar que os horrores do holocausto ou a opressão de ditaduras militaristas, de ESQUERDA E DE DIREITA, são parte de uma grande agenda doutrinária, é realmente digno da geração terraplanista, que se revolta contra as vacinas. Nicolau Copérnico e Oswaldo Cruz que rolem em suas tumbas.
É também da moda dizer o quanto o brasileiro se engajou politicamente, o quanto a internet popularizou os debates, o quanto agora as coisas serão diferentes. Que ledo engano, professor, pois o jogo de egos pré-adolescentes em que se transformou o debate político no Brasil só pouco se traduz em emancipação democrática, se qualquer coisa só transparece a nossa imaturidade perante o sagrado sufrágio.
São as mesmas brigas que tínhamos no recreio, lembra professor? Ninguém tinha razão, todos saíam machucados.
Não adianta; enquanto tratarmos o futuro da nação como tratamos o brasileirão, não há a mínima perspectiva de melhora. Na politica não há espaço para Mitos e Lendas, e há muito ultrapassamos a era das revoluções. A vida democrática não acomoda mitagens e lacrações, não combina com religiões e heresias, não comporta discursos de ódio, nem mesmo aqueles velados.
A nossa infantilidade e o nosso orgulho são os arreios dos nossos condutores. Seguimos pastando em suas mentiras convenientes e adubando seus campos de votos. A rotação de culturas não existe nessa plantação. Só existe rotação de adubo. Mudam a ração pra ver se cagamos melhor - opa, desculpe a palavra chula professor - pra ver se produzimos esterco de melhor qualidade, se a safra seguinte é maior que a anterior. São latifundiários do poder público, transvestidos de concorrentes mercantis mas donos de um único cartel eleitoral.
Não seremos livres se formos libertados pelos outros, "a liberdade não é uma coisa que pode ser dada, é algo que se busca", já dizia o romancista James Baldwin. Infelizmente pra nós a ruptura do nosso cativeiro mental não passa pela idolatria de messias ou guerrilheiros, mas pela nossa próprio auto-crítica, jeitinho este, que o brasileiro ainda não conquistou.
Nos perdoe professor, fracassamos com o senhor e com suas lições.
Atenciosa e relutantemente,
Seu aluno.