17/04/2026
“Os Testamentos: das Filhas de Gilead”
A série recém-lançada retoma o universo distópico de Gilead — iniciado no livro “O Conto da Aia”, de Margaret Atwood, e aprofundado em “Os Testamentos” — para além da denúncia evidente da violência, convidando-nos a observar algo ainda mais inquietante: os mecanismos sutis e estruturais de controle sobre as mulheres.
Em Gilead, não basta retirar direitos — é preciso reprogramar destinos.
A educação das meninas é deliberadamente limitada. O acesso às ciências é negado. A leitura é proibida. O saber, que poderia ser ferramenta de autonomia, passa a ser tratado como ameaça. Em seu lugar, institui-se uma verdadeira pedagogia da submissão: formar esposas, mães e cuidadoras, jamais sujeitas plenas de conhecimento e decisão.
Ao mesmo tempo, o discurso conservador atua como elemento legitimador desse projeto. Sob a aparência de ordem, moralidade e tradição, consolida-se uma estrutura em que homens concentram poder político, religioso e simbólico — enquanto às mulheres resta a obediência como virtude.
“Os Testamentos” nos lembra que regimes autoritários não se instauram apenas por grandes rupturas, mas sobretudo pela naturalização de pequenas privações — especialmente quando direcionadas aos corpos, às vozes e aos saberes das mulheres.
Mais do que uma distopia, um alerta.