30/08/2025
AS VOZES QUE ME CHAMAM
Às vezes, sinto que minhas mãos pesam mais que o mundo. Pego a caneta, ou encaro a tela em branco, e o silêncio que me rodeia é tão denso que quase se transforma em um julgamento. Não sei se é medo de escrever ou medo de ser lida. Num tempo em que a Inteligência Artificial borda frases perfeitas, escorre rimas calculadas, costura metáforas com a precisão de um alfaiate cósmico… eu, Yolene, tremo diante da simplicidade da minha própria voz.
Penso: e se zombarem de mim? E se disserem que meu texto poderia ser melhorado por uma máquina? E se a minha emoção parecer um erro de ortografia no meio da perfeição algorítmica?
Mas então, no fundo desse abismo, há vozes que me chamam. São vozes antigas, vozes de sonhos que nunca aceitei sepultar. Uma voz suave, que talvez seja da menina que fui, sussurra: escreve, Yolene, escreve, mesmo que doa, mesmo que ninguém entenda. Outra voz mais firme ecoa: a tua arte não precisa competir com nada, porque ela respira.
Eu me pergunto se ainda vale a pena sonhar. E quase sempre descubro que o sonho não pede permissão para existir. Ele insiste. Ele se impõe. Ele floresce até mesmo na terra seca. E talvez seja isso que distingue a escrita humana: não é a perfeição, é a cicatriz que ela carrega.
Escrevo, mesmo com medo. Escrevo, mesmo que os maldizeres venham como tempestades. Escrevo, porque se não o fizer, as vozes dentro de mim não se calam. A Inteligência Artificial pode imitar o tom, a cadência, pode até enfeitar o vazio… mas ela não sabe do peso dos meus silêncios, nem da ternura que sangra quando penso em desistir.
Eu sou feita de falhas, e é justamente por isso que minhas palavras têm alma. Se um dia duvidarem de mim, não importa. O que importa é que continuei escrevendo, e que cada palavra, ainda que imperfeita, foi um acto de coragem.
E, no fundo, talvez toda arte seja isso: o gesto de lançar-se ao abismo, confiando que as vozes que nos chamam não são ilusões, mas ecos daquilo que insiste em viver dentro de nós.
Yolene Vieira