10/03/2026
LER COM ATENÇÃO:
O tema da condução acompanhada por tutor em Portugal levanta várias questões sérias — pedagógicas, legais e até culturais. O modelo não é novo no papel, mas está a ganhar força política e poderá tornar-se uma realidade muito mais comum nos próximos anos. Convém olhar para isto com calma e espírito crítico.
1. O que está realmente a mudar
O regime de aprendizagem com tutor já existe desde 2014, mas quase não foi utilizado. Agora o Governo pretende reforçá-lo e até reduzir o número de aulas práticas nas escolas de condução, incentivando a prática com um tutor (pai, mãe, familiar ou outro adulto) em contexto real.
Algumas propostas apontam para:
Redução das 32 horas de aulas práticas nas escolas.
Parte significativa da aprendizagem feita fora da escola, com tutor.
Manutenção da formação teórica e do exame final.
Ou seja, a escola deixa de ser o único espaço de formação prática. Passa a dividir esse papel com alguém da família ou círculo próximo.
2. Quem pode ser tutor (na teoria)
A lei actual impõe alguns requisitos mínimos:
Ter carta da categoria B há pelo menos 10 anos.
Não ter crimes rodoviários nem contraordenações graves ou muito graves nos últimos 5 anos.
Frequentar um módulo de segurança rodoviária.
O tutor é responsável pelas infrações do aluno durante a condução acompanhada.
O veículo precisa de seguro específico e dístico identificativo.
No papel parece sólido. Na prática… começam as dúvidas.
As fragilidades reais do sistema
1. O tutor pode conduzir há 30 anos… mas conduzir mal
Ter carta há 10 anos não significa saber conduzir bem.
Muitos condutores:
nunca voltaram a estudar o Código da Estrada,
têm vícios graves de condução,
desconhecem alterações legais recentes,
conduzem de forma defensiva apenas por hábito.
E sabemos todos disto. Basta observar uma rotunda num dia de chuva.
O risco é simples:
o aluno aprende os erros do tutor antes de aprender a condução correta.
Na instrução profissional, o instrutor não ensina apenas a conduzir — ensina a conduzir segundo um método.
2. O problema da “transmissão de vícios”
Quem trabalha na instrução conhece bem isto.
Alguns exemplos clássicos que os alunos aprendem em casa:
conduzir com uma mão no volante
não sinalizar corretamente
entrar em rotundas “à portuguesa”
usar travão e embraiagem mal combinados
não manter distâncias de segurança
Depois chegam à escola e dizem:
“Mas o meu pai faz assim.”
E o trabalho começa do zero.
3. A questão das cartas estrangeiras
Aqui entra o ponto que se levanta — e é muito importante.
Portugal permite troca ou reconhecimento de cartas de condução de vários países. Dependendo do país de origem, os requisitos de formação não existe pois a troca é direta.
Isso significa que pode existir tutor que:
tirou carta com exigência técnica menor,
aprendeu regras de circulação diferentes,
nunca estudou o Código da Estrada português.
Na teoria, o módulo de segurança rodoviária deveria corrigir isso.
Na prática, um módulo curto não substitui formação profissional.
4. A ausência de pedagogia
Conduzir bem não significa saber ensinar a conduzir.
Ensinar condução exige:
metodologia progressiva,
controlo de risco,
leitura do comportamento do aluno,
correção imediata de erros.
Um instrutor é formado para isso.
Um pai… normalmente reage assim:
“Trava! TRAVA! Eu disse para travares!”
E pedagogia não é isto.
5. Responsabilidade e segurança
A própria lei reconhece o risco ao colocar a responsabilidade no tutor pelas infrações ou acidentes.
Mas isso levanta outra questão:
quem garante que o tutor tem capacidade real para gerir uma situação de risco?
Um instrutor tem:
pedais duplos,
formação em prevenção de acidente,
experiência com alunos.
Um tutor comum tem apenas boa vontade.
A comparação com outros países
O argumento político é que o modelo existe noutros países europeus.
É verdade — mas com grandes diferenças.
Exemplos:
França: exige milhares de quilómetros de prática supervisionada.
Alemanha: sistema rigoroso e altamente controlado.
Países nórdicos: formação familiar + formação profissional intensa.
Ou seja:
não substituem a formação profissional — complementam-na.
A grande questão: formação ou facilitação?
No fundo há duas visões opostas.
Visão política
reduzir custos,
aumentar acesso à carta,
flexibilizar o sistema.
Visão da segurança rodoviária
manter formação rigorosa,
evitar transmissão de maus hábitos,
reduzir sinistralidade.
A associação das escolas de condução chegou mesmo a classificar a medida como um “retrocesso civilizacional” na segurança rodoviária.
Palavras duras, mas compreensíveis para quem está no terreno.
A reflexão final
Conduzir não é apenas saber mexer num volante.
É tomar decisões em segundos que podem custar vidas.
Quando a formação passa do instrutor para o familiar, o risco é este:
trocamos método por hábito
trocamos ensino por imitação.
E a estrada não perdoa erros aprendidos cedo.
Depois existe três pontos que quase ninguém está a discutir e que são ainda mais preocupantes:
O impacto desta medida na sinistralidade jovem.
O efeito na profissão de instrutor de condução.
O risco de “banalização” da formação l rodoviária em Portugal.
E esses três temas dão uma conversa longa… e muito séria.