02/04/2026
É, no mínimo, constrangedor assistir à forma como a instituição que deveria representar a advocacia vem se posicionando em determinadas situações.
Nós, advogados e advogadas, arcamos com uma anuidade elevada, muitas vezes pesada para a realidade de quem está na luta diária da profissão, com a expectativa legítima de que esses recursos sejam revertidos em melhorias concretas para a classe, na defesa das prerrogativas e no fortalecimento da advocacia.
No entanto, o que se vê, em certos momentos, é um completo desvio dessa finalidade!
A realização de homenagens, com uso de recursos institucionais, direcionadas a figuras ligadas ao meio político, como cônjuge de prefeito ou vereadoras, especialmente em uma data simbólica como o Dia da Mulher, não apenas causa estranheza, como levanta um questionamento inevitável: a quem, de fato, a instituição está servindo?
Não se trata de ser contra homenagens. O reconhecimento é importante, necessário e justo quando direcionado a quem efetivamente contribui para a advocacia, para o sistema de justiça ou para causas sociais relevantes. Mas homenagear pessoas sem relação direta com a luta da classe, utilizando recursos provenientes da anuidade dos advogados, ultrapassa o limite do razoável.
A advocacia brasileira enfrenta desafios reais e urgentes. Profissionais desvalorizados, dificuldades financeiras, falta de respeito às prerrogativas, obstáculos no exercício da profissão. Diante desse cenário, é inadmissível que a entidade que deveria ser a principal voz da classe se permita investir em ações que mais se aproximam de gestos de conveniência política do que de iniciativas em prol da advocacia.
E quando isso ocorre justamente no Dia da Mulher, a situação se torna ainda mais grave.
Trata-se de uma data que simboliza luta, resistência e conquistas históricas. É um momento de dar visibilidade a trajetórias que realmente fizeram, e fazem, a diferença.
Utilizar esse espaço para homenagens desconectadas desse propósito esvazia o signif**ado da data e desrespeita tudo o que ela representa.
O problema, no fundo, não é apenas a homenagem em si. É o que ela simboliza: um distanciamento preocupante entre a instituição e a realidade da advocacia que a sustenta. É a sensação de que prioridades estão sendo invertidas, de que interesses institucionais e políticos estão sendo colocados à frente das necessidades reais da classe.
Cada anuidade paga carrega mais do que um valor financeiro. Carrega confiança. Carrega a expectativa de representatividade. Carrega a esperança de que a instituição atue com seriedade, responsabilidade e compromisso com aqueles que a mantêm.
Quando essa expectativa é frustrada, o que se perde não é apenas dinheiro. É credibilidade.
A advocacia não pode ser coadjuvante dentro da própria entidade que deveria defendê-la.
É preciso retomar o foco. É preciso estabelecer critérios claros, agir com transparência e, principalmente, respeitar quem está na base de tudo isso: o advogado e a advogada que trabalham diariamente, enfrentando dificuldades reais e esperando, no mínimo, uma atuação institucional compatível com a importância da profissão.
Se há homenagens a serem feitas, que sejam direcionadas a quem verdadeiramente contribui para a advocacia e para a justiça. O restante não representa reconhecimento, representa conveniência!
E conveniência não pode ser custeada com o dinheiro da advocacia!