03/08/2026
A advocacia brasileira hoje tem rosto de mulher. Estatisticamente, nós já somos a maioria absoluta dos profissionais inscritos na OAB. No entanto, o peso do imaginário coletivo sobre o que é e como deve parecer um defensor de alto nível ainda está profundamente preso a figuras antigas, solenes e predominantemente masculinas.
Ser mulher, jovem e ocupar espaços de destaque signif**a ser testada diariamente.
Desde o início da minha jornada, percebi que precisava policiar cada detalhe. A escolha minuciosa das roupas, a postura ao sentar, o tom de voz calmo e firme. Tudo isso desenhado estrategicamente para minimizar constrangimentos e garantir que a minha competência técnica não fosse ofuscada por preconceitos invisíveis.
Mas, às vezes, o questionamento vem de forma direta.
Em uma das minhas idas a uma delegacia de polícia, ao estacionar o carro, fui questionada por um agente sobre o motivo de estar parando na vaga exclusiva para advogados. Com calma, firmeza e segurando a minha credencial, precisei me impor e lembrar que aquele espaço era por direito meu e de qualquer colega no exercício da profissão.
A verdade é que a barreira quase nunca se apresenta como uma agressão explícita. O que cansa é a necessidade de estar em estado de atenção constante. É a carga mental de calcular cada gesto em ambientes masculinos, garantindo que absolutamente nada na sua postura dê margem a qualquer interpretação que não seja o mais rigoroso profissionalismo.
Ocupar esses espaços com excelência não é apenas o meu trabalho. É uma demarcação diária de que a competência não tem gênero, idade ou estereótipo.
Às minhas colegas que enfrentam essa mesma vigilância silenciosa todos os dias: a nossa presença técnica e inabalável é a nossa resposta mais poderosa.
Você também já sentiu esse peso de precisar provar a sua autoridade antes mesmo de começar a falar?